Por Secretariado Diocesano da Liturgia
O tempo da Quaresma tal como, aliás, todo o ano litúrgico, tem uma história cujas etapas, no essencial, são bem conhecidas. Porém, o número 40 com o seu simbolismo não foi arbitrariamente escolhido pela Igreja. Ela o encontra, com efeito, na própria Escritura Sagrada: são os 40 dias em que Jesus jejuou no deserto depois de ter sido batizado no Jordão (Mt 4, 2); os 40 dias em que Moisés jejuou no Sinai (Ex 24, 18; 34, 28; Dr. 9, 9); os 40 dias da caminhada de Elias em direção ao Horeb (1 Rs 19, 8); os 40 dias do dilúvio (Gn 7, 4); os 40 dias de prazo que Jonas deu aos ninivitas para se converterem (Jn 3, 4) e, certamente na camada mais profunda do significado deste número, os 40 anos do êxodo de Israel desde o Egipto até à Terra de Canaã (Sl 95/94, 10; Ne 9, 21; At 7, 36). Por todos estes motivos a Igreja de algum modo não se sente “autora”, deste tempo litúrgico, mas como que o encontra já instituído por Deus na Escritura… Cristo em pessoa recapitulou e deu sentido pleno às quaresmas do Antigo Testamento e com a sua observância “instituiu”, e inaugurou a Quaresma da Igreja, imagem do tempo presente e preparação da Páscoa eterna na Terra prometida.
Tomando como referência o atual Leccionário do Ano A (em que estamos), a caminhada quaresmal articula-se em três fases:
1) Um pórtico com duas colunas – 1º e 2º Domingos – que serve de introdução e abertura. Nele se antecipam todas as principais temáticas do mistério pascal e da Quaresma. O 1º Domingo permite aos batizados “voltar ao deserto” com Cristo, tomar consciência da dimensão agónica da existência cristã e retomar o crescimento até à plenitude da filiação divina. O 2º Domingo antecipa a meta do êxodo quaresmal e motiva-o, ao mesmo tempo que põe em evidência o subsídio principal para o enfrentar: a escuta da Palavra de Jesus. São duas semanas em que ressoa forte o apelo à conversão.
2) Um tempo de aprofundamento da vida de fé (III-IV-V Semana). A orientação batismal dos evangelhos da Samaritana (o dom da água viva), do cego de nascença (a iluminação sobrenatural) e da ressurreição de Lázaro, sublinha o sentido da passagem da morte para a vida, das trevas para a luz pela adesão a Cristo dador da água viva, luz verdadeira, caminho, verdade e vida. É fundamental o cristocentrismo deste itinerário sacramental. Ao mesmo tempo, nas mais diversas ocasiões (liturgia ferial, celebrações penitenciais…) sublinha-se a importância do amor a Deus (oração), da penitência e da caridade para com o próximo.
3) Um tempo à sombra da Cruz, árvore da vida (VI semana, até Quinta-Feira Santa), coincidindo com a preparação imediata para a Páscoa. Nestes dias o horizonte é preenchido principalmente com a contemplação dos imediatos antecedentes da Paixão de Cristo e vive-se a iminência da celebração do Mistério pascal que se prepara proximamente pela reconciliação sacramental dos batizados penitentes e pelos últimos encontros e celebrações pré-batismais dos catecúmenos. Aprestando-se para celebrar a bem-aventurada Paixão do Redentor, todos dão início às festas pascais na alegria de um coração purificado.
O mistério pascal para cuja vivência a Quaresma encaminha, permite-nos compreender melhor como na Liturgia a História da Salvação se encontra com a história dos homens, hoje e aqui, pela mediação dos ritos sacramentais. Por tudo isto, a Quaresma é como que um “sacramento” com que Deus vem ao nosso encontro para nos salvar. Como o antigo Israel e como Cristo, também a Igreja, peregrina no tempo, revive o mistério do êxodo:
– Com os catecúmenos que se preparam para o próximo Batismo assimilando um estilo novo de vida segundo o Evangelho;
– Com os penitentes que depois do Batismo sentem a necessidade de se reconciliar novamente com Deus e com os irmãos;
– Com todos os que se voltam para Cristo, à procura de uma renovação pessoal cada vez mais profunda, para que “com o espírito desimpedido dos afetos desordenados de tal modo se ocupem das coisas que passam que possam desde já aderir às que permanecem” (Prefácio da Quaresma II, em tradução mais literal); e para que, “participando nos mistérios [= sacramentos] pelos quais renasceram, sejam levados à plenitude da graça de filhos” (Prefácio da Quaresma I, em tradução mais literal).