Vamos entrar de novo em tempo de Quaresma, um tempo de renovação em cada ano, que deve tornar-se tempo forte de reflexão, de interiorização e de conversão.
Para os media torna-se em tempo esquecido, já que antes os olhos se voltam para o carnaval, porque é espetáculo e a Quaresma não possui essa dimensão mediática. Um tempo em que nas mensagens sobressaem os apelos ao sentido fraterno, à partilha, à dedicação ao outro e à atitude de voluntariado como formas do espírito cristão deveria tornar-se um tempo de profunda valorização de toda a sociedade. A recente tragédia das inundações em vários pontos do país e os dramas económicos e humanos que envolveram as populações e cujas consequências se projetarão em toda a sociedade tornaram-se louvavelmente indutoras de um universo de movimentos solidários que se podem bem enquadrar no espírito quaresmal, que conduziu já à orientação da renúncia quaresmal por vários bispos diocesanos para os apoios às vítimas do tornado e das inundações.
Por outro lado, encontramos novas dimensões do significado do sentido da renúncia quaresmal na sua origem e na tradição da Igreja. O Papa Leão XIV, naquela característica da sua personalidade e dimensão humana da palavra que dirige aos cristãos e à sociedade, com projeto transverso para a sociedade universal, discerniu um tema herdado do papa Francisco, mas agora já repetidamente reelaborado por este: o tema da linguagem como expressão da atitude, do sentimento humano e da vivência das relações sociais: o tema da linguagem, apelando a que se comece por desarmar a linguagem, afirmando: “Não se resignem à cultura da opressão e da injustiça. Pelo contrário, difundam o respeito e a harmonia, começando por desarmar as linguagens e, em seguida, investindo energias e recursos na educação, especialmente dos meninos e dos jovens”.
Por outro lado, na mesma linha, afirma a superação de uma “cultura de injustiça” tornada numa dimensão do sentido do jejum que propõe: o jejum do conflito, da confrontação, da agressividade de linguagem, da ofensa, de uma estranha dinâmica de marginalização ínsita nas linguagens políticas e na linguagem quotidiana e não apenas em atividades relacionadas com a criminalidade ou o narcotráfico. A linguagem social está muitas vezes marcada por este substracto de violência e de ofensa, que a linguagem quotidiana inconscientemente transmite. Lembra o Papa que “a violência existe e fere, ganhando por vezes terreno entre os jovens e os adolescentes, talvez alimentada pelo consumo de substâncias; ou por obra de organizações criminosas, que exploram as pessoas envolvendo-as nos seus crimes”, propondo que as comunidades se possam tornar “escolas de honestidade”, com a “força desarmante da mansidão”.
Uma aplicação destes princípios de funda raiz cristã e toda a convivência humana das sociedades está de acordo com o próprio ensinamento de Jesus sobre o sentido do jejum, ao lembrar que o verdadeiro jejum é o que conduz a realizar a vontade de Deus.
Recorda-se que na habitual mensagem para a Quaresma Leão XIV lembrava diretamente a “abstinência de palavras” que atingem e ferem o próximo, falando expressamente da necessidade de “desarmar a linguagem”, na sociedade contemporânea, a pelando à força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro”.
Esta é certamente uma dimensão nova do significado do jejum ou abstinência de que sempre se fala para a Quaresma: a abstinência da palavra ofensiva, do espírito agressivo e o apelo constante à linguagem da concórdia e da compreensão. A honestidade profunda da linguagem é um valor cristão, um valor humano e um valor social. Muito mudaria o nosso convívio social com esta dimensão da linguagem!
Se podemos falar hoje de novas dimensões para a caridade, que passam pelas palavras e pelas ações políticas, elas devem passar pelas práticas sociais a culturais da organização da sociedade humana.