Os lucros do setor energético e petrolífero

Quem lucra com uma economia de guerra não é apenas o setor tecnológico e militar, mas também o energético: matérias-primas e petróleo em primeiro lugar.

Segundo a Bloomberg, operadores e intermediários do mercado do petróleo estão registrando os maiores lucros desde 2022, ano da invasão russa da Ucrânia.

Empresas como Vitol, Trafigura, Gunvor e Mercuria Energy devem obter ganhos astronômicos, em alguns casos superiores a 2 ou 3 bilhões de dólares.

Hoje o preço do Brent permanece acima dos 100 dólares por barril. Entre os países que mais se beneficiam estão Estados Unidos e Rússia, além de outros como Indonésia (carvão) e Noruega.

“No caso de Washington – explica Pelligra – a revalorização do petróleo é consequência de decisões e tendências de longa duração, preparadas ao longo do tempo. A política das perfurações, além do abandono dos princípios da transição ecológica, já faziam parte do programa político da atual administração.”

Ganham as refinarias, que conseguem obter petróleo no mercado interno ou importando-o do México, Canadá e também da Venezuela, de onde a importação triplicou no último ano, segundo dados da Us Energy Information Administration.

Ganham também gigantes como ExxonMobil e Chevron, cujas ações subiram mais de 20%, além das europeias BP, Shell e TotalEnergies, que aumentaram significativamente seus lucros.

Moscou, por sua vez, obtém vantagens com o bloqueio do canal de abastecimento de Hormuz e dos países do Golfo, graças ao alívio das sanções.

As vantagens para as Bolsas e os mercados financeiros

A lista de beneficiários continua. Os mercados financeiros também veem disparar as cotações de determinados papéis. O índice S&P500 ganhou mais de 3% entre fevereiro e abril de 2026, com crescimento anual de 30%.

“Para alguns, a insegurança e o medo são formas de capital que oferecem enormes retornos. Mas muitos outros setores industriais estão em grande dificuldade”: tanto porque a situação atual torna complicado planejar investimentos, quanto porque “as indústrias da guerra drenam a maior parte dos recursos disponíveis”.

Sobre quem recaem os custos

Quase nunca, porém, se fala dos custos de uma economia de guerra, além dos frios boletins diários de vítimas. Ao lado daqueles que acumulam lucros gigantescos, estão todos os que sofrem perdas significativas.

“Antes de tudo, os setores que enfrentam dificuldade para encontrar financiadores dispostos a investir em paz, transição energética e desenvolvimento.”

Há ainda “os custos em termos de fragilidade das relações internacionais: o sistema das organizações multilaterais, apesar de seus defeitos, entrou em colapso. As relações entre antigos aliados evaporaram, e estamos diante de uma lógica hobbesiana.”

Além disso, isso “leva ao bloqueio do comércio e às guerras tarifárias como instrumentos de pressão e retaliação”.

Existe também a questão da democracia. “Os espaços no debate público sobre certos temas são extremamente reduzidos. Assim que alguém assume uma posição crítica em um debate já polarizado, é imediatamente colocado em um dos extremos. Essa atitude esteriliza a complexidade dos problemas que somos chamados a enfrentar.”

Por fim, há as consequências para as liberdades pessoais e a privacidade, “que praticamente já não existe e cuja proteção abandonamos desde a chegada das redes sociais”.

Diante de um cenário tão problemático, poderia parecer que não há soluções. Mas não é assim, conclui o analista.

A primeira questão é cultural. “Nos últimos tempos sofremos uma reestruturação do modo de pensar e da narrativa”, explica.

“Se anos atrás falar de guerra nuclear era um tabu, hoje ela é considerada uma possibilidade. Voltou-se também a considerar a dissuasão como base para a paz. Mas isso não é paz: é ausência de conflito baseada no medo.”

“Como nos disse o Papa Leão, a paz é resultado de uma mudança total de perspectiva. Por isso, é preciso antes de tudo trabalhar para escapar da retórica belicista, que de normal não tem nada.”

Na semana passada, na Universidade La Sapienza de Roma, o Pontífice também sublinhou que não se pode chamar de defesa aquilo que é apenas rearmamento e enriquecimento das elites.

“Depois, há a pressão que os cidadãos podem exercer sobre os representantes políticos, por exemplo na reconstrução de uma verdadeira aliança europeia. As sanções decididas pela União Europeia contra colonos violentos da Cisjordânia são um pequeno sinal: ainda que quantitativamente pouco relevantes, possuem forte significado político.”

Por fim, como consumidores, “sempre temos a possibilidade de votar com a carteira, direcionando nossos investimentos e compras para escolhas éticas”.

Em suma, é preciso fazer qualquer coisa para não perder a esperança, recolocar no centro a proteção das liberdades pessoais, a justiça e o bem comum, devolvendo à política o papel que lhe cabe.

(Vatican news)