No quarto dia da visita apostólica a Espanha, o Papa Leão XIV, na sua passagem por Barcelona, continuou a deixar-nos mensagens que convidam a uma reflexão.

O Papa Leão XIV recordou que o Concílio Vaticano II define o Ofício Divino como «a voz da Esposa que fala com o Esposo» e como «a oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai».

“A primeira, recorda-nos que a Igreja, e em particular esta assembleia, rica em dons e carismas e na diversidade das histórias de cada um, é, acima de tudo, uma Esposa amada. Deus quis que estivessem aqui, porque gosta de ver em vós e na vossa união uma beleza e uma bondade únicas e sagradas. Ele escolheu-vos para representardes hoje a “comunidade dos santos” que se encontra em Barcelona.”

“Convido a renovar, num só coração, o propósito de caminhar juntos, fiéis e Pastores, todos seguindo as pegadas de Cristo, rumo à plenitude da vida”.

“Somos chamados a propagar nos nossos ambientes, nas famílias, nas paróquias, nos locais de trabalho e formação, nos ambientes da Cúria e em qualquer outro âmbito da vida: um clima de família, no qual se vive juntos, conscientes da filiação e do chamado comum, solidários, abertos, capazes de misericórdia, sacrifício, atenção mútua e perdão”.

“Se Cristo é o Esposo que nos amou primeiro, Ele é também a Cabeça à qual estamos unidos como membros de um único organismo, uns ao serviço dos outros, «homens de todas as tribos, línguas, povos e nações», todos animados pela ação do mesmo Espírito, todos chamados à mesma santidade”.

“Isto também é importante, porque nos recorda que, para nós, trabalhar juntos não é uma questão de “estilo”, mas uma necessidade fisiológica, fundada na graça concedida a cada um «segundo a medida do dom de Cristo», e à qual correspondemos colocando em ação os carismas recebidos e respeitando os ministérios que foram confiados.”

“Queridos irmãos e irmãs: num mundo dilacerado por guerras e divisões, é com este espírito que também nós, numa sociedade cada vez mais fragmentada e individualista, queremos ser “mártires”, ou seja, testemunhas e profetas de unidade, acolhimento, concórdia e paz, mesmo que isso implique sacrifícios e renúncias. A exemplo da santa virgem Eulália e de tantos outros mártires, queremos dar o nosso “sim”, dispostos, no que for preciso, a morrer para nós mesmos, a perdermo-nos para nos reencontrarmos, a renunciar ao supérfluo para construir sobre o que é essencial e perdura para sempre.”

Partindo do texto evangélico proposto, Leão XIV ressaltou que também nós somos como Nicodemos, peregrinos na noite. Esta imagem evangélica, frisou ele, oferece-nos, acima de tudo, uma mensagem sobre o caminho da vida.

“Enquanto avançamos lentamente, com pequenos passos, somos chamados a dialogar com a penumbra da nossa própria condição humana: falta-nos a verdade completa, não conhecemos em profundidade o mistério de nós próprios e o verdadeiro rosto dos outros, nem sempre conseguimos compreender a verdade escondida da realidade que nos rodeia e dos acontecimentos que se apresentam diante dos nossos olhos. Procuramos uma luz que ilumine o caminho.”

“Irmãos e irmãs, Nicodemos ensina-nos que estas noites — que acompanham a nossa vida, o caminho da fé e a história em que vivemos — são um lugar de bênção, um espaço para renascer, um ventre que sempre dá à luz uma vida nova. Estas noites despojam-nos e devolvem-nos ao essencial; retiram-nos as máscaras humanas e religiosas que usamos durante o dia, para que não sejamos reconhecidos ou para dar uma imagem de nós mesmos diferente daquilo que somos; deixam-nos à vista, nas nossas luzes e nas nossas sombras, devolvendo-nos à humildade de nos sabermos olhar na verdade, para além da presunção de pensar que o nosso caminho já está percorrido e que avançamos como se tivéssemos uma luz clara sobre tudo, sobre todos e até mesmo sobre Deus.”

“Não deixemos de procurar, de questionar e de dialogar, com Deus e entre nós, mesmo no meio da noite. Caminhemos juntos na fé que harmoniza a diversidade das nossas ideias e sensibilidades, para procurar a verdade que nos guia ao bem comum, para que este país seja um espaço acolhedor para todos, onde cada um é respeitado na sua dignidade de pessoa e amado pelo que é.”