Por Jorge Teixeira da Cunha

Não há como negar um afrontamento entre os defensores do uso do missal de S. Pio V e a maioria que celebra a Eucaristia e os outros sacramentos segundo os livros litúrgicos aprovados pelo Papa Paulo VI. De facto, é cada vez maior o número das pessoas que se reúnem por aí, de forma clandestina, para assistir à missa em rito antigo. O que leva estas pessoas a defender tão encarniçadamente a oração pública numa língua morta, o latim, e seguindo um modelo que limita a participação dos fiéis na acção litúrgica, que é suposto ser participada por todos os membros do povo de Deus? A resposta não é fácil, pois quando se trata de gostos e de sentimentos, como chegar a uma plataforma comum? Vamos fazer algumas reflexões sobre este complexo assunto.

Começamos por perguntar o que levou os bispos reunidos no segundo Concílio do Vaticano (1962-1965) a propor uma reforma litúrgica. Uma vez mais, a questão não fácil de responder em poucas palavras. No modesto entender de quem escreve este texto, o que levou os representantes da Igreja mundial a votar esta reforma foi algo muito sério e que vinha levedando desde o século XIX através do chamado movimento litúrgico. Este movimento era uma parte de outros movimentos que sentiam a necessidade de um maior contacto com a palavra de Deus na Escritura, de um maior enraizamento existencial da espiritualidade e de um exercício mais autêntico da mística cristã e da oração. Todo este substracto, por sua vez, está em conformidade com uma transferência da sensibilidade cultural do nosso tempo para uma recuperação do mundo da vida, em vez da tradicional visão científica do real, como a pensou a modernidade. Por isso, a reforma é mais fundamentada do que parece à primeira vista parece aos seus opositores.

Foi neste contexto que germinou a opção por traduzir e colocar na mão dos crentes a Bíblia (coisa que era proibida no passado), por traduzir os livros litúrgicos para as línguas vernáculas, por ensaiar novas formas de música litúrgica. Este projecto foi bem conseguido? Pois, fazendo um balanço, parece oportuno dizer que há muito a fazer. Os defensores do rito antigo têm alguma razão quando nos acusam de termos desqualificado a liturgia, de termos esvaziado de poesia as fórmulas seculares, de termos banalizado a música, de termos introduzido gestos triviais na acção litúrgica e assim por diante. Mas podemos colocar a questão noutros termos e perguntar: foi em vão que se aumentou o contacto das pessoas com a Sagrada Escritura? Foi em vão que demos às nossas línguas a nobreza de expressarem o divino? Foi em vão que desencadeámos um movimento de criatividade que, em pouco mais de meio século, produziu obras notáveis de música, que pôs o povo de Deus a celebrar a liturgia das horas?

O balanço não é fácil de fazer. Os tradicionalistas observam que temos as Igrejas vazias, que temos os seminários despovoados. Mas este tipo de comparações não colhe. O que teria sido da Igreja se não tivesse feito a reforma do Concílio? Quem o pode saber? Será que o latim nos tinha salvo da crise que estamos a viver? Será que as pessoas que demandam os seminários tradicionalistas vivem vocações mais autênticas ao sacerdócio do que o comum dos fiéis? São tudo perguntas de resposta difícil. Podemos dizer tanto a tradicionalistas como a progressistas que no que toca à fidelidade a Deus e à experiência autêntica da fé e da vocação, não é fácil encontrar heróis.

A nosso ver, o pensamento de hoje tem mais abertura para o divino do que o pensamento metafísico ou científico do passado, onde se radica o rito antigo. Por isso, é bom conselho deixar-se de afrontamentos e de comparações estatísticas, quando se trata de medir a relação do ser humano com o mistério insondável de Deus.

Isto dito, ainda falta dizer uma coisa. Não parece justo que as pessoas de boa-fé, que preferem celebrar a Eucaristia no rito antigo, dentro das normas vigentes da Santa Sé, estejam totalmente impedidas de o fazer. Seria conveniente encontrar uma solução que, em nome da caridade pastoral e dos legítimos direitos dos fiéis, pudesse dar uma solução a este problema. Desde que se aceitem duas condições. Que nenhum dos participantes nesta reivindicação considere que o seu ponto de vista é mais fiel ao projecto fundador de Jesus do que o dos outros. E desde que não vejam como adversários a maioria que se esforça por manter a unidade da Igreja e por seguir aquilo que foi escolhido num tempo de especial experiência do Espírito Santo, como foram os anos conciliares.