Por Jorge Teixeira da Cunha
A Fraternidade S. Pio X reincidiu na ordenação de bispos sem mandato apostólico do Papa, coisa que já tinha feito em 1988. No actual ordenamento canónico, esse gesto é punido com uma excomunhão e provoca uma divisão da Igreja que se chama cisma. Podemos olhar o assunto sob a forma de ruptura da unidade da Igreja, mas também olhar esse facto como um sintoma da unidade sempre imperfeita da Igreja de Cristo. O papa Leão XIV não merecia esta provocação desse impaciente grupo de cristãos, logo no início do seu serviço de Pedro. Mas, a nosso ver, ele fez bem em não ceder à chantagem que vinha sofrendo há meses.
A Fraternidade S. Pio X é um grupo de orientação conservadora e reaccionária a que deu origem o bispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991), desde os dias do Concílio Vaticano II. O foco das discórdias é a rejeição das deliberações do Concílio em matéria de liturgia, pois rejeitam a reforma litúrgica, no que toca à liberdade religiosa e ao diálogo inter-religioso. A razão imediata que invocaram para desobedecer foi o estado de necessidade, pois precisam de bispos para a assistência dos cerca de meio milhão de seguidores da sua orientação. Os seus candidatos podem até ter qualidade, mas carecem do mandato apostólico que Roma lhes tem recusado. Segundo bons canonistas, o estado de necessidade que foi invocado não se verifica e, por isso, a pretensão do grupo não é justificada.
O que leva estes cristãos a proceder como precedem e não aceitar a orientação da Igreja tomada num Concílio ecuménico? A nosso ver, trata-se de uma razão teológica. Vem a propósito recordar uma história que foi contada aos estudantes do fim dos anos setenta a respeito do bispo Lefebvre. Um seu professor de teologia da comunidade espiritana onde se formou com altas classificações, sempre lhe dizia no termo do exame: “Marcelo, fizeste um excelente exame, mas nada percebeste da matéria!” Ora é isto que está em causa nesta agremiação. A compreensão racional da fé que manifestam é tipicamente moderna, cientificista, visibilista. Vivem concentrados sobre um formalismo severo na celebração dos sacramentos, encaram a Igreja como uma comunidade perfeitamente delimitada pela forma externa, uma instituição assente no direito e na distinção, pensam que a salvação está no cumprimento escrupuloso de um programa de vida. Mas falta-lhes algo mais importante que a doutrina e a instituição, que é a experiência do mistério divino a que Jesus nos iniciou, antes de qualquer doutrina. Eles, e muitos que pensam como eles, são tipicamente modernos sem o saberem. Têm a seu favor o sucesso das suas práticas para muita gente perdido na cultura de massas em que vivemos, pois muitos preferem a segurança em vez da aventura da fé. Mas a segurança objectiva nunca foi um critério de fidelidade ao Evangelho de Jesus.
A Igreja é uma comunidade cujas fronteiras são difíceis de precisar. A unidade da Igreja nunca existe de forma perfeita enquanto caminha na história. Por isso, o cisma que gora se consumou não tem uma importância tão grande. Não está em causa a sinceridade de muitos dos seguidores dos movimentos conservadores que abundam nos dias que correm. Está em causa o esforço que é pedido a todos por perseverarem na fidelidade “ao ensino dos apóstolos, à Eucaristia, à oração do Senhor”. As sensibilidades diversas não ofendem a unidade, antes a engrandecem, se forem vividas como forma de contribuir para a riqueza inesgotável da vida em Cristo. Mas a perseverança na comunhão como serviço de Pedro é um aspecto fundamental da vida da Igreja de sempre, mesmo que possa revestir-se de diversas formas e seja perfectível. Talvez um dia não seja já possível que todos os bispos sejam escolhidos pelo método que tem sido nos últimos séculos e sejam eleitos de uma forma melhor. Se a Fraternidade de S. Pio X tiver essa ideia melhor que a comunique a toda a Igreja e cá estaremos para discutir o assunto, com sabedoria e com caridade. A sofreguidão de avançar unilateralmente não é sinal de caridade, nem de sabedoria nem de melhoramento. A pressa insofrida de muitos e bons cristãos já aconteceu no passado por diversas vezes e nunca o resultado melhorou a unidade e fidelidade a Cristo. Deste vez, também não parece que o gesto cismático vá melhorar a fidelidade a Deus.