Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Ainda há quem suponha que o cisma dos seguidores mais radicais de Lefebvre (FSSPX) é “apenas” litúrgico: uma questão de gostos e preferências rituais. Por isso sugerem que a forma de responder a esta “crise” consistirá em minimizar o motivo da rutura, tornar lícito celebrar a Sagrada Liturgia tal como se fazia antes do Concílio. Como se o Concílio Vaticano II não tivesse decretado qualquer reforma/instauração litúrgica ou, tendo-o feito, tal reforma – liderada, aprovada e promulgada pela legítima autoridade da Igreja Católica – se pudesse minimizar ou, até, ignorar. É uma mera questão de gostos e de gustibus non est disputandum! (Gostos não se discutem). Como se a Liturgia fosse pouca coisa! Como se não houvesse um nexo estrito entre “lex orandi” e “lex credendi”!

Na verdade, uma consideração objetiva dos factos leva a concluir, sem margem para dúvidas, que em todo este processo a Liturgia foi pretexto e não causa do Cisma e que, agora, satisfazer as pretensões que relativizam a Liturgia da Igreja é correr o risco de continuar a instrumentalizá-la, alargando o espaço do mesmo Cisma para dentro da Igreja e tornando facultativo ou irrelevante o próprio Concílio Ecuménico. Seria o carcinoma a metastizar-se por todo o corpo.

Sem dramatizar, e com a perspetiva da história da Igreja que ensina que todos os grandes Concílios do passado tiveram a sua contrapartida de heresias ou cismas, é bom recapitular alguns dos passos mais significativos deste processo.

Marcel Lefebvre (1905–1991), apresentou-se no II Concílio do Vaticano com uma notável folha de serviços de bispo missionário na África Ocidental. Com esse prestígio, participou na Comissão Preparatória Central do Concílio Vaticano II. Nos debates conciliares (1962-1965), a sua posição foi-se extremando progressivamente, sendo um dos principais impulsionadores e coordenadores do Coetus Internationalis Patrum [CIP] que agrupava os bispos mais conservadores da assembleia conciliar (cerca de 250-300 em 2500). A princípio, foi uma oposição moderada. Basta dizer que votou favoravelmente (placet) a Constituição sobre a Sagrada Liturgia. Aprovou com reservas (placet iuxta modumLumen Gentium (opunha-se ao princípio da colegialidade episcopal), Christus Dominus e Dei Verbum. Mas opôs-se com o seu voto (non placet) a Unitatis Redintegratio (ecumenismo), Nostra Aetate (religiões não cristãs), Dignitatis Humanae (liberdade religiosa) e Gaudium et Spes (Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo). Por fim, não obstante a radicalização crescente, subscreveu todos e cada um dos documentos conciliares.

Já se vê, por esta resenha, que a Liturgia não era o foco da discrepância. O que, sobretudo, suscitava a sua oposição era o suposto e temido casamento da Igreja com os ideais da Revolução Francesa e a infiltração do modernismo. Historicamente, a sua dissidência começa a propósito da questão dos seminários e da formação do clero. Depois de se distanciar da Congregação missionária dos Padres do Espírito Santo, fundou um seminário em Écône, na Suíça, a princípio com aprovação do Bispo diocesano (1970). Pretendia formar padres na linha da «tradição»: com e para a doutrina “de sempre”, a Liturgia “de sempre”, a pastoral “de sempre”, dizendo não ao liberalismo, não ao comunismo, não ao “modernismo”, não ao diálogo (ecuménico,  inter-religioso, sociopolítico; só a verdade tem direitos e Cristo tem de reinar nas consciências e nos Estados). Em suma: não àquilo que chamará “abastardamento” da fé, da disciplina e da Liturgia.

Obviamente, quem forma seminaristas quer ordenar presbíteros. A rutura começa a tornar-se inevitável em 1974 (célebre declaração de Écône) e, após a ordenação, à revelia, dos primeiros padres, Lefebvre é suspenso a divinis (proibição de presidir à celebração dos Sacramentos e demais atos de culto público católico) em 22 de julho de 1976, de nada valendo a intervenção pessoal de São Paulo VI. Apesar de intenso diálogo que, já nos anos 80, teve como protagonista da parte da Santa Sé o Cardeal Ratzinger, e não obstante a advertência de uma inevitável excomunhão por cisma, em 30 de junho de 1988 Lefebvre consumou a rutura ordenando quatro bispos sem o mandato pontifício. Era papa São João Paulo II que manifestou a dor imensa da “Igreja de Deus aflita” perante este corte formal com a sua comunhão: de fé, de culto, de disciplina e, portanto, comunhão hierárquica.

Não se pode dizer que a questão litúrgica não tenha tido o seu peso neste processo de progressivo distanciamento. As bandeiras contam na mobilização das hostes! É um facto que o novo Ordo Missae, conhecido em 1968, foi objeto de grande controvérsia – impulsionada sobretudo pelos continuadores do CIP, com Lefebvre à cabeça – com uma intervenção de pública censura do próprio Cardeal Alfredo Ottaviani, antigo e respeitado Prefeito do Santo Ofício. Segundo o Breve Exame Crítico do Novo Ordo Missae, por ele subscrito, estar-se-ia a protestantizar a Missa, negando ou obscurecendo a fé na presença real de Cristo e do seu sacrifício, e esvaziando ou desqualificando a intervenção do sacerdócio ministerial que já não agiria in persona Christi capitis (fazendo as vezes de Cristo-Cabeça) mas sim como presidente de uma assembleia democrática. Hoje sabe-se que o redator principal desse exame inqualificável foi o teólogo dominicano Michel-Louis Guérard des Lauriers, então muito próximo de Lefebvre, defensor da tese sedevacantista, que terminou os seus dias como bispo cismático rebelde. E o próprio Ottaviani se demarcou, logo a seguir, desse documento manifestamente descontextualizado, infundamentado e preconceituoso. A posterior revisão da IGMR, com o acrescento de um proémio, deu-lhe resposta mais do que satisfatória.

Mas, voltemos ao princípio: o problema decisivo não era a Liturgia. Como já tinha claro São Paulo VI, na carta que escreveu a Lefebvre, em 11 de outubro de 1976, «o fundamental», «a questão capital e essencial» era esta: «rejeitas em geral a autoridade do Concílio e do Sumo Pontífice». «Tradição não é algo imóvel e morto …e não pode ser separada do Magistério vivo da Igreja». «Tu próprio, e os teus seguidores esforçais-vos por permanecer imóveis num certo período definido da vida eclesial; ao fazê-lo, recusais-vos a aderir à Igreja viva». Em matéria de Liturgia, após sumariar a obra de «restauração litúrgica», Paulo VI declara:  «Por Nossa autoridade, sancionamos esta renovação, ordenando que seja observada por todos os que se consideram católicos. Mas se julgamos, em geral, que neste assunto não se devem permitir moratórias nem conceder exceções, fazemo-lo para o bem espiritual e a unidade de toda a comunidade eclesial, visto que para os católicos do Rito Romano o “Ordo Missae” é um sinal preeminente da sua unidade. Quanto a ti, esse rito anterior é um indício de falsa eclesiologia e matéria para atacar o Concílio e a sua obra de restauração, sob o pretexto ou com a desculpa de que só nesse rito antigo se preservam o verdadeiro sacrifício da Missa e o verdadeiro sacerdócio ministerial, sem que seja obscurecido o seu significado. Mas nós rejeitamos completamente este juízo errado, esta acusação injusta, e não podemos permitir que a divina Eucaristia, Sacramento da unidade, se torne causa de divisões (1Cor 11, 18) e que seja usada como instrumento e sinal de sedição».