No momento da narração da instituição e consagração, por vezes veem-se sacerdotes que presidem à celebração eucarística – presbíteros e bispos – tomarem a patena com a mão esquerda, segurando sobre ela a hóstia, enquanto recitam as palavras do Senhor. Ao dizer “Tomai e comei…”, alguns olham para a comunidade e até fazem o gesto redondo de oferecer a hóstia sagrada aos participantes. Depois, sempre segurando a Espécie com o polegar e indicador da mão direita, mostram/elevam o sacramento, quase como um árbitro que exibisse o cartão amarelo para sancionar comportamentos antidesportivos…. Estará bem esse procedimento? Mera questão de estilo pessoal sem interferência na verdade e qualidade do rito? Algumas observações:
1. Antes da reforma litúrgica, o Ritus servandus e as rubricas do Missal estabeleciam com clareza e detalhe o gesto a realizar: o sacerdote tomava a Hóstia entre os indicadores e polegares de ambas as mãos. Também o cálice se deveria segurar com ambas as mãos. Esta gestualidade tinha o seu valor estético – hoje mais advertido porque a celebração se faz habitualmente de frente para o povo – e correspondia às palavras da narração da instituição eucarística no Cânone Romano (OE I): «tomou o pão/o cálice em suas santas e adoráveis mãos…».
2. O Ordinário da Missa atualmente em vigor simplificou as rubricas. Limita-se a dizer que o sacerdote que preside à celebração «toma o pão, sustentando-o um pouco elevado sobre o altar». Como? Não se explica. Contudo, o Cerimonial dos Bispos não deixa de dizer que o Bispo, à consagração, «segura, com as mãos [note-se o plural], a hóstia ou o cálice» (106). É de crer que, nos primeiros anos ou décadas de vigência do novo Missal, esta rubrica mais simples continuou a ser entendida em continuidade com a prática precedente. Porventura, a única inovação gestual terá sido o abandono progressivo do costume de conservar unidas as polpas dos polegares e dos indicadores, até à ablução após a comunhão.
3. Porque será que se introduziu e divulgou a prática de o sacerdote, nesse momento, segurar a patena com a mão esquerda e tomar a Hóstia com a direita? Porventura porque, nas concelebrações, se colocam várias hóstias na mesma patena, para a comunhão dos concelebrantes. Alguns celebrantes terão pensado – ou agido como se pensassem – que tinham de ter todas as Hóstias nas suas mãos (ainda que por interposta patena) para garantir a consagração das mesmas (!). Ou, então, foi mimetismo com o gesto de apresentação do Corpo do Senhor no momento da Comunhão (às palavras: «… Eis o Cordeiro de Deus!…»). Lembramos que, no coração da Oração Eucarística, depois de recitar as palavras ditas pelo Senhor Jesus na Ceia da instituição, também está prevista uma ostensão da Hóstia consagrada, para adoração dos fiéis. Mas são dois gestos que convém diferenciar: à Consagração, a Sagrada espécie, segura com ambas as mãos, é mostrada para adoração; antes da Comunhão, mostra-se, com a mão direita, a Hóstia já partida, sustentada sobre a patena ou o cálice (estes, obviamente, segurados com a mão esquerda), convidando os fiéis a abeirarem-se da “Ceia do Senhor”.
4. Sobretudo importa corrigir o erro (menos frequente, mas bem mais grave) de o sacerdote que preside se dirigir aos fiéis (com o olhar e, por vezes, também com o gesto da mão) enquanto pronuncia as palavras da Ceia. A rubrica, pelo contrário, até prevê que ele se incline um pouco, enquanto dá voz às palavras de Cristo, inseridas numa prece dirigida a Deus Pai. O padre (ou bispo) não está a representar cenicamente a ceia, funcionando como um ator e interagindo com a assembleia que representaria a parte dos apóstolos… Nesse momento – desde o início do Prefácio até ao final da doxologia – ele dirige-se ao Pai na mais importante oração de toda a ação sagrada. A narração da instituição não é uma fórmula destacável nem o guião de uma cena teatral, mas, sim, parte integrante duma oração/ação que deve ser cada vez mais entendida na sua unidade: «ponto central e culminante de toda a celebração, a Oração Eucarística, é uma oração de ação de graças e de consagração. O sacerdote convida o povo a elevar os corações para o Senhor, na oração e na ação de graças, e associa-o a si na oração que ele, em nome de toda a comunidade, dirige a Deus Pai por Jesus Cristo, no Espírito Santo» (IGMR 78).
5. Concluindo: Neste momento sagrado, a performance que se requer do sacerdote celebrante não é a de um ator virtuoso e arrebatador, mas a de um orante autêntico, humilde e convicto. Regressemos, pois, à simetria, equilíbrio, recolhimento e estética do gesto recebido porque a celebração eucarística não é teatro: é memorial do mistério da salvação.