Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Por conceito e preconceito, a questão do alinhamento geográfico das igrejas e dos orantes, na oração litúrgica, tem sido objeto de debate e polarização, sobretudo após a publicação da Introdução ao Espírito da Liturgia de Ratzinger (2000), futuro Bento XVI.

As sinagogas judaicas são construídas de modo a apontar para a localização do Santo dos Santos do Templo de Jerusalém. Na geografia de Portugal, quase parece terem o mesmo alinhamento das nossas igrejas (mas não exatamente!), como se pode comprovar na Rua Guerra Junqueiro, no Porto, em que uma sinagoga se eleva quase ao lado da Igreja paroquial do Santíssimo Sacramento. Destruída a cidade de Jerusalém e arrasado o templo, no ano 70, o culto das sinagogas, com leitura das Escrituras e orações, carece do altar para os sacrifícios cruentos, mas continua focado no “Arca” sagrada onde Deus tem o seu “trono” e atende o povo com o qual se ligou em aliança. Parece que já antes da catástrofe do ano 70, porventura desde a época do exílio, se começaram a erigir sinagogas com esse fulcro, dado que o culto nelas realizado satisfazia, de algum modo, esta intenção religiosa de, à distância, suprir a subida ao templo para participar nos sacrifícios prescritos.

Também o islamismo tem o cuidado de edificar as suas mesquitas de tal modo que os seus fiéis rezem sempre na direção da Caaba, o edifício cúbico da Grande Mesquita de Meca. Por isso, se a mesquita se edificar na Europa, orientar-se-á para Sudeste; em Timor apontará para Oeste… Na parede mais importante das mesquitas há uma espécie de nicho – o Mihraba – que assinala o foco para onde os fiéis se devem voltar para rezarem virados para Meca, o proto santuário do culto monoteísta, cuja edificação atribuem a Abraão. Dão assim cumprimento a um preceito do seu livro sagrado e exprimem mediante este sinal a sua unanimidade na oração.

O cristianismo não conhece a fixação de um lugar geográfico como foco da sua oração. Nem mesmo Jerusalém, o lugar da consumação histórica do mistério pascal do Senhor Jesus Cristo. A rotura com o judaísmo e a necessidade de demarcação das práticas judaicas, cedo terão determinado o abandono deste foco. É conhecido que as primeiras gerações cristãs não construíram de raiz os seus edifícios de culto, mas reuniam-se nas casas mais capazes de membros das comunidades nascentes e estas situavam-se na malha edificada das cidades onde viviam, fossem quais fossem as suas coordenadas geográficas. A mais antiga Domus Ecclesiae que a arqueologia nos devolveu – Dura Europos, na Síria (232 d.C.) – é a adaptação de uma casa romana corrente, em tijolo, cuja orientação dependia do traçado urbano. O acesso fazia-se pelo lado nordeste, a sala da assembleia estendia-se ao longo do lado sul, o batistério estava localizado no Noroeste…

A situação alterar-se-á quando os cristãos começarem a construir edifícios de raiz que, quando tal é possível, se começam a «orientar», ou seja, a seguirem um eixo no sentido oeste (entrada) – este (ábside). Anterior aos edifícios seria a orientação da própria oração. Tertuliano (c. 155 – c. 220), na sua obra Aos pagãos, corrige a opinião dos que pensavam que o sol é o Deus cristão, fosse porque os cristãos se reuniam no dia do sol (domingo), fosse «porque se lhes tornou notório que nós rezamos voltados para o Oriente» (cf. Antologia Litúrgica [AL] 587. Também a Didascália dos Apóstolos (57, 2-5), um regulamento eclesiástico siríaco do séc. III, ao dar disposições acerca dos espaços das assembleias, recomenda que se reservem ao bispo e aos presbíteros assentos na parte da casa voltada para Oriente e explica o motivo: «Convém orar voltado para o Oriente, pois sabeis que está escrito: Dai glória a Deus que Se eleva no Céu dos Céus, no lado do Oriente» (AL 845].

No mesmo sentido prega e escreve o grande Orígenes de Alexandria (185-253/4). Devemos olhar para Oriente, de onde nasce o Sol da Justiça (Homilia 9, 10: AL 882). E pergunta: «quem não reconhecerá que se deve orar voltado para o Oriente, como símbolo, para que a alma esteja orientada para a aparição da verdadeira luz?» (A oração, 32: AL 946). S. Basílio de Cesareia considera que essa prática é uma tradição apostólica não escrita [AL 1515] e explica o seu sentido místico: «apesar de todos nós, ao rezar, olharmos para o Oriente, poucos sabem que estamos à procura da nossa antiga pátria, o Paraíso que Deus plantou no Éden, na direção do Oriente» (Espírito Santo, 27, 66: AL 1515a). Registemos, por fim, as instruções do livro II das Constituições Apostólicas (um regulamento eclesiástico siríaco do séc. IV): «a casa deve ser comprida, voltada para o Oriente, com sacristias de ambos os lados, também voltadas para o Oriente. Deve parecer-se com um navio» (II 57, 3: AL 1536); «levantar-se-ão todos ao mesmo tempo, e, com o rosto voltado para Oriente, após a saída dos catecúmenos e dos penitentes, rezarão a Deus, que subiu ao mais alto dos Céus, em direção ao Oriente, em memória da antiga possessão do Paraíso, situado a Oriente, donde foi expulso o primeiro homem, por ter desobedecido ao preceito, enganado pelo conselho da serpente» (Ibid. 14: AL 1539).

É toda essa riqueza simbólica que vai concretizar-se na regra geral adotada pela Igreja, desde o período constantiniano, de construir as suas basílicas segundo o eixo poente-nascente, com a fachada a poente e a ábside a nascente. Esta regra, porém, conhecerá muitas exceções. Como se verá.