A Educação constituiu sempre uma preocupação central dos ensinamentos da Igreja. É significativo que o documento conciliar (de 1965, assinado por Paulo VI) Gravissimun Educationis tenha sido agora motivo para uma nova Carta Apostólica do Papa Leão XIV, a que atribuiu a designação de “Desenhar novos mapas de esperança” e que foi publicada em 28 de outubro, por ocasião do 60.° aniversário da referida  Declaração Conciliar”. O Papa pretende assim relançar e integrar no tempo presente a temática e centralidade dos desafios da educação nos dias de hoje.

Importa relembrar que o documento conciliar de 1965 assinalava princípios como o direito universal à educação, “aberta ao consórcio fraterno com os outros povos”, aproveitando os progressos da psicologia, pedagogia e didáctica, em ordem ao desenvolvimento harmónico das qualidades físicas, morais e intelectuais, e à aquisição dos caminhos para assumir a responsabilidade na própria vida, no sentido da valorização e equilíbrio do uso da liberdade humana, propondo a existência e projetos das escolas católicas, desde a formação inicial até às Universidades.

Numa altura em que adquirem força os processos tecnológicos e o desenvolvimento da chamada inteligência artificial, Leão XIV afirma a predominância das dimensões humanas sobre os processos que servem para as transmitir e edificar: “Nenhum algoritmo pode substituir o que torna humana a educação: a poesia, a ironia, o amor, a arte, a imaginação, a alegria da descoberta e até mesmo a educação ao erro como oportunidade de crescimento”.

E acentua a centralidade da pessoa humana e das suas dimensões pessoais sobre os processos de transmissão do conhecimento, afirmando que “A inteligência artificial e os ambientes digitais devem ser orientados para a proteção da dignidade, da justiça e do trabalho; devem ser regidos por critérios de ética pública e participação; devem ser acompanhados por uma reflexão teológica e filosófica adequada”.

E Leão XIV, recorrendo a princípios já delineados pelo Papa Francisco , salienta a especial relevância de alguns, como o respeito pela vida interior, sugerindo na educação a presença de

espaços de silêncio, discernimento e diálogo com a consciência e com Deus. Noutra dimensão, salienta para o valor humano do digital: educamos para o uso sábio da tecnologia e da IA, colocando a pessoa à frente do algoritmo e harmonizando a inteligência técnica, emocional, social, espiritual e ecológica.

Regressa também ao conceito apresentado na mensagem para o Dia Mundial da Paz: a paz desarmada e desarmante, promovendo uma educação que valorize o diálogo, a “construção de pontes e não de muros”, tornando a promoção da paz como método e conteúdo da aprendizagem, lembrando a formulação bíblica “Bem-aventurados os que promovem a paz” (Mt 5,9).

A parte final e conclusiva levanta o problema e as propostas da utilização da linguagem no diálogo social, formulando um pedido para que se desarmem as palavras, se eleve o olhar e proteja o coração. O mandato à comunidade educativa, no entanto, não ignora os desafios: “a hiperdigitalização pode destruir a atenção; a crise das relações pode ferir a psique; a insegurança social e a desigualdade podem apagar o desejo”. Faz igualmente um apelo à “qualidade e coragem”, que devem ser praticadas em vista de uma inclusão cada vez maior, afirmando que “A gratuitidade evangélica não é retórica: é um estilo de relação, um método e um objetivo”.

Esta superação do carácter retórico e psicologicamente substitutivo que os conceitos comuns atribuem à afirmação e às propostas de espiritualidade, ou de dignidade humana, hoje correntes, bem como aos valores do amor e da emoção no equilíbrio psicológico dos cidadãos, constitui uma novidade da reflexão doutrinal da Igreja, a que deu corpo o Papa Francisco, e que Leão XIV quer dar continuidade.

Outras ideias centrais nesta mensagem convém assinalar: a educação deve sempre construir a esperança; a família deve tornar-se o inicial e principal lugar de educação; toda a educação deve associar tanto a justiça social como a respeito ambiental; as tecnologias devem ajudar a construir a pessoa e não promover a sua substituição, procurando a promoção da dignidade humana, do equilíbrio social e das relações humanas baseadas no respeito mútuo.

A educação possui sempre caminhos novos, especialmente agora nesta emergência da inteligência artificial, que importa tornar caminho de promoção e crescimento pessoal. Imprta saber tonar a tecnologia um instrumento de valor humano.