Ocorreu por estes dias o centenário da fundação da Juventude Operária Católica (JOC). Ao nosso país, esse movimento chegou uma década mais tarde, sendo assumido como um movimento especializado de Acção Católica no mundo laboral. Foi fundador do movimento o sacerdote belga Joseph Cardijn (1882-1967) que o Papa Paulo VI distinguiu fazendo-o bispo e cardeal. Oriundo de uma família pobre, foi chamado à vida sacerdotal. Olhando a sorte dos seus antigos companheiros de infância, explorados no trabalho e agressivos contra a Igreja, teve a intuição de promover a acção católica entre eles como forma de os reconduzir à Igreja e de mostrar como a fé religiosa era um princípio de lucidez para transformar o mundo laboral em ebulição. A sua militância em favor da dignificação do povo trabalhador levou-o a uma vida atribulada, tendo passado pela prisão em diversas ocasiões, nos tempos difíceis da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. O seu lema: “Um jovem trabalhador vale mais do que todo ouro do mundo”, teve uma grande popularidade entre os jovens militantes operários e muito do espírito da sua actividade continua a fazer imenso sentido nos dias de hoje.
O centenário da JOC coincide com a intensa discussão que o projecto governamental de reforma das leis laborais para o séc. XXI está a desencadear no nosso país. Por isso, a inspiração do passado dá-nos o ensejo de dizer alguma coisa sobre o que parece que está em causa.
Um ponto que parece importante é a evolução do trabalho associado na empresa. Os sindicatos opõem-se com razão a que as leis consagrem uma arbitrariedade do empregador sobre os seus trabalhadores, podendo despedir sem justa causa, ampliando os prazos dos contratos a termo e outras prerrogativas um tanto unilaterais. Do ponto de vista da ética social cristã, podemos dizer que, em geral, a empresa tem resistido ao melhoramento das relações humanas entre as pessoas que a integram. Enquanto a comunidade política se democratizou, a família se humanizou, as Igrejas se tornaram participativas e sinodais, observamos que a empresa de trabalho continua a ser um foco de resistência a estes melhoramentos e permanece uma instituição hierarquizada à moda do tempo antigo. Sabemos que o trabalho associado é um mundo de conflito, mas parece justo perguntar se as leis laborais, em vez de aperfeiçoarem as grilhetas de quem trabalha, fossem pensadas como melhoramento das asas das pessoas que trabalham e de as tornarem mais felizes no seu emprego? Será isso tão fora de horizonte? As leis poderiam consagrar o dever de as empresas darem aos seus trabalhadores perspectivas de progressão, com prazos mais longos e perspectivas de salário de acordo com planos individuais de cumprimento objectivos pensados em grupo, aumentando assim a produtividade da empresa e o bem-estar do trabalhador? Isso, a nosso ver, seria o trabalho do séc. XXI, mas do que o que está em cima da mesa e que vai ocasionar uma greve geral. Cremos que seria possível pensar as leis com estes pressupostos e não com os antigos, com a polémica que se vê.
O espírito do trabalho da JOC poderia ainda levar-nos noutra direcção. Sabemos como a inteligência artificial vai condicionar muito o trabalho do futuro. A chegada do robot é uma boa notícia. Se os trabalhos da terra, da construção civil e outros trabalhos duros, forem feitos pela máquina cada vez mais inteligente, isso é uma boa notícia para o mundo. Só quem nunca experimentou a dureza desses trabalhos pode ter medo do futuro. Mas para que o uso da máquina inteligente não seja traumático para a sociedade do futuro, será necessário um grande melhoramento dos sujeitos humanos que somos. Precisamos de um processo muito grande de crescimento em educação moral e em cidadania e liberdade. Desde logo para mantermos o poder de decisão sobre a máquina que, a quanto parece, vai adquirir uma certa espontaneidade. Apenas indivíduos muito seguros de si e muito competentes poderão manter sob o seu domínio a máquina inteligente. Mas apenas sujeitos muito autónomos e evoluídos moralmente poderão controlar a distribuição da riqueza produzida, evitando assim um crescimento exponencial das desigualdades a que já estamos a assistir. É por isso que a dignificação dos trabalhadores, que foi a luta da JOC no passado, terá de ser a luta dos cristãos do futuro. E talvez com mais urgência no futuro do que o foi no passado. A nossa Igreja terá de fazer um grande investimento para evangelizar o mundo do trabalho no futuro que já começou.