Por M. Correia Fernandes
Perante a insistência atual no uso do termo cultura, importaria lembrar um escrito de Arnaldo Pinho (1942-2025), Cultura da Modernidade e Nova evangelização (1991), que reflete sobre o sentido mais pleno o do conceito de cultura, hoje tão banalizado na linguagem e no uso corrente. Importa assinalar esta especial capacidade do autor em promover e valorizar o diálogo da fé com as expressões culturais do mundo moderno e a valorização humana dos universos complexos da cultura de hoje com os fundamentos e expressões tradicionais da fé. Importa pesquisar e analisar os caminhos e tarefas para uma influência evangélica sobre as múltiplas mentalidades hodiernas, o sentido e formas de atuar junto da sociedade de hoje no intuito de lhe transmitir e inculcar um espírito sempre novo e perene que possa dar alma e vida ao concreto da criatividade humana num universo economicista, superficial e vazio de sentido na sociedade atual.
No dias de hoje, chama-se cultura qualquer atividade nascida ou envolvida pelo espetáculo, e falta muito entendimento do sentido vivencial, humanista e mais profundo da criatividade cultural. O universo de conhecimentos, de práticas, de expressões artísticas, de valores assumidos ou propostos, e o conjunto de hábitos e práticas correntes incluem-se no conceito de cultura nos diversos contextos sociais.
Os universos do pensamento, da filosofia ou dos desenvolvimentos da teologia parece muitas vezes ausentes dos conceitos de cultura que hoje se assumem. Uma visão moderna de cultura apresenta muitos desafios implícitos, sobretudo como importa ler, analisar, aprofundar e contradizer muitos conceitos ou práticas da modernidade nas suas versões atuais. O conceito de autonomia, a “saída do homem da sua menoridade culpada”, a independência da vontade, princípio único de todas as leis morais, como referiu Kant, vem de encontro também ao conceito proposto pela Unesco, que a descreve como o conjunto de traços distintivos espirituais, materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam o universo social envolvente, os modos de vida quotidiana, os valores assumidos e as convicções pessoais em cada momento vivencial.
Esta variabilidade vem igualmente marcada por muitas tendências do pensamento atual, desde o ateísmo prático ou a declaração subtil da “morte de Deus” em conceitos de niilismo, de racionalismo, de positivismo que vem de tempos anteriores, mas que persiste nas sociedades atuais em diversos quadros civilizacionais. As dimensões de uma cultura atual marcada pelo sentido e vivência da fé postulam a afirmação de uma pedagogia da evangelização, que dê resposta à “febre religiosa” que se pode detetar nas manifestações populares, como foi possível testemunhar na recente visita do Papa Leão XIV à sociedade espanhola, ou na lembrança da Jornada Mundial da Juventude, onde as camadas juvenis exteriorizaram uma forma de entusiasmo que traduz uma vontade de vida e de espiritualidade no quotidiano dos universos mediáticos de hoje. Importa assim desenvolver e valorizar um diálogo das raízes e fundamentos da fé com os conceitos, de formas de vida e práticas sociais dos nossos dias.
Poder-se-ia então perguntar ou propor pistas para uma presença do espírito evangélico na cultura atual, passando pela abertura aos valores-fundamento, e ao mesmo tempo pelo reconhecimento e discernimento da presença dos valores essenciais no substrato ideológico da sociedade atual. Importa igualmente a presença nos centros de divulgação e de influência, a atenção à complexidade do mundo atual, busca e utilização de linguagens e estilos de comunicação nas mensagens da comunicação social, ou na tradução dos ideais do magistério nos domínios da linguagem social corrente.
Importaria assim passar dos conceitos e práticas da bipolaridade (como sagrado/profano, vida religiosa/vida privada) às práticas do pluralismo que ponha em prática uma relativização recíproca de grupos diferentes, um apelo aos sentidos do carisma, que acolhe e envolve os valores mútuos.
Os últimos documentos papais têm procurado responder a esta dimensão do diálogo, atentos aos movimentos culturais hodiernos, acolhendo ideias e valorizando propostas do universo complexo do diálogo cultural, como o valor da Humanidade Magnífica, recente conceito e ideal proposto.
Cabe aqui a referência especial à ação dos fiéis leigos, conforme lembrava João Paulo II: “A Igreja pede aos fiéis leigos que estejam presentes, em nome da coragem e da criatividade intelectual nos lugares privilegiados da cultura” (Chistifideles laici).
Importa que esta “coragem” e “criatividade intelectual” esteja também presenta nos usos desafiantes da Inteligência Artificial.
(Escrito em memória de Arnaldo Pinho)