Tínhamos fruído da pertinência e atenção aos dramas da sociedade de hoje através da palavra orientadora do Papa Francisco (2013-2025), nas suas múltiplas o oportunas mensagens, desde as cartas encíclicas até às diversas orientações pastorais produzidas ao longo do seu pontificado. Todos lembramos que, logo após a sua primeira encíclica Lumen fidei (de 29 de junho de 2013, pouco tempo depois da sua eleição), surgiu (em 2015) a Laudato Sì, que agitou e orientou um conjunto de reflexões sobre os problemas do universo ecológico, a que se seguiram a Fratelli Tutti (2020) e a Dilexit nos (datada de 24 de outubro de 2024), pouco tempo antes da sua morte.

Até aos dias de hoje, o novo papa Leão XIV ainda não publicou nova carta encíclica, mas a sua palavra esclarecida e a sua doutrinação quotidiana manifestam já um universo de contextos  filosóficos, teológicos e  ideológicos que merecem uma especial atenção.

Para além de o nome Leão XIV sugerir a continuidade da doutrinação social do seu antecessor Leão XIII, que lançou as raízes da doutrina social da Igreja, podemos discernir nas suas intervenções muitas linhas de pensamento verdadeiramente lúcidas e oportunas. Da sua figura sorridente e de uma invulgar simpatia como personalidade pública, brotam sentenças de grande lucidez e sentido teológico proposto como caminho. Vejamos algumas das últimas afirmações.

Primeiro: a solidariedade social. “Nenhum de nós é autossuficiente. Ninguém se pode salvar sozinho. A vida consuma-se não quando somos fortes, mas quando aprendemos a receber” (3 de setembro de 2025).

Este princípio de solidariedade social é ao mesmo tempo teológico e sociológico, e constitui a base de toda a doutrina ou prática de comportamento humano. Outra dimensão frequentemente aludida pelo Papa é a da solidariedade internacional, surgida em torno das grandes catástrofes se vão manifestando, não apenas as mais referenciadas como a do próximo Oriente ou da Ucrânia, mas também pela atenção a outros lugares do mundo menos referenciados, como a “catástrofe humanitária” que se vive no Sudão, onde centenas de milhares de pessoas são afetadas pela guerra civil, as catástrofes naturais ou um surto de cólera, situações como a do Darfur, onde a guerra civil destrói a vida de populações e particularmente de crianças.

Segundo: A proteção do ambiente e o respeito por todos os seres vivos, que constitui a continuação do ensinamento do Papa Francisco, bem como a preparação de projetos para o Desenvolvimento Humano Integral, no espírito da intenção proposta do “Cuidado da Criação”, na esteira da Laudato Sì.

Terceiro: o sentido social da humildade e a consciência das limitações humanas (“ninguém pense que tem todas as respostas”), tão arredadas da linguagem política, são propostas em relação com outros conceitos da teologia e da moral cristã, como a capacidade de escuta, de acolhimento e a busca da cooperação ou a edificação da unidade de intenções e de tarefas sociais e humanas.

Quarto: o anunciado tema da mensagem para o Dia Mundial da Paz, que assenta em proposta para as relações políticas internacionais: “Rumo a uma paz ‘desarmada e desarmante’”. Sabemos que não é esta a lógica tanto das superpotências como das relações internacionais, quando se propagam propostas do aumento dos gastos em “defesa”, que têm vindo a promover a lógica do rearmamento. Porém esta é mais uma proposta lançada aos ventos do pensamento e da consciência humana: “A guerra nunca é inevitável, as armas podem e devem silenciar, porque não resolvem os problemas, mas os aumentam; pois entrará para a história quem semeia a paz”. Semear a paz: eis uma dimensão proclamada por Jesus desde a proclamação das bem-aventuranças, tão solene como esquecida.

Esta capacidade de discernir os núcleos do pensamento social e do sentimento humano constitui a dimensão subjacente à sensibilidade social e cultural do pensamento e das propostas lançadas ao universo social, linhas de orientação para o mundo.

Quinto: O encontro, o diálogo, a construção de pontes são outras dimensões dos ideais propostos, onde sobressai o sentido concreto da vivência da fé e os dramas da sua falta: A falta de fé muitas vezes traz consigo dramas como a perda do sentido da vida, o esquecimento da misericórdia, a violação – sob as mais dramáticas formas – da dignidade da pessoa, a crise da família e outras feridas das quais a nossa sociedade sofre.

Sexto: a busca na sociedade de seguranças fictícias, como a tecnologia, o dinheiro, o sucesso, o poder e o prazer são contrapostas ao sentido da segurança proposta pela fé, desvalorizada na linguagem corrente. No entanto importa encontrar nela o suporte de toda a ação humana, buscando caminhos que a realizem.A centralidade dos valores humanos é também abordada como contraponto da mediocridade nas atividades sociais: Estes tempos pedem a cada um de nós, nas nossas diferentes funções e serviços, que nunca cedamos à mediocridade.

Sétimo: Paz na comunicação. Aplica também o sentido da paz nos caminhos da comunicação: Desarmar as palavras é uma forma de ajudar a desarmar a Terra: “Uma comunicação desarmada e desarmante permite-nos partilhar uma visão diferente do mundo e agir de forma coerente com a nossa dignidade humana”.

Fique a proposta: ainda não somos perfeitos, mas é importante que sejamos credíveis!