Por Secretariado Diocesano da Liturgia
Pressupondo que ambos respeitem os requisitos de uma celebração válida e lícita, entre a Missa presidida pelo presbítero mais criativo e a celebrada por outro, menos “animado” e animador, a diferença é apenas acidental e secundária: o que principalmente conta é a ação do Liturgo principal e esse é, sempre e só, Jesus Cristo». Entretanto, também temos observado que o mau desempenho dos «agentes humanos chamados a participar de forma consciente e ativa na obra divina» pode «encobrir ou obscurecer o que só Deus pode realizar» pelo seu ministério. Numa palavra: também aqui a graça não anula – mas antes supõe, assume e promove – a natureza.
Alguém insuspeito, como o Santo Padre São João Paulo II, que testemunhara o modo como se celebrava antes da reforma litúrgica pós-conciliar e o confrontava com a prática corrente à entrada no terceiro milénio não hesitava em reconhecer que «a comunidade cristã cresceu muito no modo de celebrar os Sacramentos, sobretudo a Eucaristia» (NMI 35). E exortava: «É preciso prosseguir nesta direção». Não obstante as diferentes perceções dos que idealizam a situação anterior e se opõem ao caminho da Igreja: são perceções que pouco têm a ver com a realidade. A reivindicação da forma pré-conciliar já não parte dos nostálgicos e saudosistas do passado – que quase não existem –, mas no preconceito ideológico de quem, na verdade, o ignora e recusa o magistério vivo da Igreja. Devemos, antes, acolher a diretiva para progredirmos e não regredirmos. E isto reclama particularmente um empenho redobrado, de preparação e revisão, para os ministros ordenados chamados a presidir às celebrações litúrgicas.
Sejamos claros: a reforma litúrgica, no generoso intento de promover e facilitar a participação ativa de todos os fiéis nas celebrações litúrgicas, multiplicou imenso as exigências que recaem sobre os pastores sem, contudo, os ter preparado suficientemente para assumir esse tão pesado ónus. Vejamos alguns exemplos:
Quando a celebração era em Latim, já havia quem notasse as deficiências da dicção, pronúncia e articulação por parte dos «celebrantes», sobretudo a partir do momento em que, com o sucesso das chamadas «missas dialogadas», a assembleia se começou a associar aos ministros nos diálogos e aclamações; entretanto, essas deficiências de locução só afetavam marginalmente a participação dos fiéis ignorantes da língua latina e habituados a apoiar-se na memória ou em traduções para a vivência inteligente do rito. Acontecia até que as orações mais importantes da Missa eram ditas em segredo… Hoje, com a celebração em vernáculo, qualquer imperfeição a este nível tem consequências inevitáveis ao nível da comunicação e, nos casos mais graves, pode tornar-se obstáculo insuperável à participação. Consequentemente torna-se indispensável proporcionar aos candidatos ao diaconado e ao sacerdócio algo que já foi assumido na formação dos leitores: a preparação para a arte de dizer e proclamar.
Antes da reforma litúrgica prevalecia o princípio da «orientação» na prece litúrgica: os arquitetos projetavam as igrejas normalmente de poente para nascente e o retábulo-mor, na cabeceira, assegurava a organização coerente do espaço; o sacerdote pronunciava as orações litúrgicas voltado para «Oriente» – Cristo é o «Oriente» ou «Sol nascente» – e, portanto, de frente para esse retábulo; só ocasionalmente se voltava para os fiéis, fazendo a saudação ritual, assegurando assim um contacto que dava conteúdo à qualificação do seu ministério exercido sempre «em nome da Igreja» de que era o porta-voz orante (e não apenas «na pessoa de Cristo-cabeça»); os fiéis, por sua parte, recolhidos atrás do sacerdote celebrante, estavam como ele voltados para Oriente, alimentando a sua participação orante de diverso modo, segundo as letras e a piedade, ou, simplesmente, olhando os retábulos e, no momento culminante da celebração, contemplando o Santíssimo Sacramento.
Nessas condições, de facto, as diferenças entre as capacidades de «animação» dos celebrantes só minimamente se repercutiam na «realização» celebrativa. Hoje, porém, o sacerdote que preside à celebração está num face-a-face ininterrupto com a comunidade reunida e transformou-se no «pivot» de toda a comunicação litúrgica. Este frente-a-frente é inevitavelmente exigente e desgastante exigindo qualidades raras, para além de preparação e exercício constantes. E é aqui que se torna indispensável desenvolver nos ministros e fiéis o sentido da reverência e do mistério. Porque a comunicação horizontal – entre os ministros e a comunidade – é certamente importante; mas o grande diálogo de que vive a Liturgia e que faz a sua essência não é o dos padres com o povo, mas o de toda a assembleia litúrgica, hierarquicamente estruturada e articulada na variedade dos ministérios, ofícios e funções que a integram, com o Pai, pelo Filho, na unidade do Espírito Santo: o Santo, Santo, Santo!