O assunto era para ser outro. Mas um recente programa televisivo de grande circulação que versou sobre a vida de alguns sacerdotes da zona norte do país merece que se diga uma palavra ao povo de Deus. Mesmo que os comportamentos moralmente impróprios e civilmente criminosos do grupo em causa não venham a ser comprovados, como esperamos, o ponto de vista que nos parece necessário desenvolver aqui não fica carecido de fundamento.
A divulgação dos factos ainda não comprovados pelo canal de televisão em causa é sintoma do tempo que vivemos a diversos títulos. Já sabemos que os meios de comunicação, mesmo os mais criteriosos, não conhecem hierarquias de valor, de forma a tratarem como especialmente estimável o fenómeno religioso, acima de outros fenómenos. Por isso, não podemos esperar que os assuntos do clero que tiverem valor noticioso, como é este da incoerência da moral dos sacerdotes que pregam uma coisa e fazem outra, venha a ser tratado de forma discreta, em vista de um valor fundamental do sacerdócio. Temos de viver com isso. E a matéria que foi divulgada é especialmente grave por se tratar de actos homossexuais em grupo e por uma alegada associação criminosa de clérigos. É aqui que achamos necessário dizer uma palavra ao povo de Deus, na qualidade de ministros da Igreja.
Parece justo dizer, apesar do impacto destas notícias, a qualidade dos ministros da Igreja de hoje é melhor do que nos séculos anteriores. De facto, hoje não é frequente vermos pessoas demandarem o sacerdócio por conformismo social e por ambição de ganhos materiais. A profissão de sacerdote não é especialmente atractiva por estes motivos interesseiros como foi no passado. Mas a nobreza do sacerdócio é tão alta que as pessoas de qualidade mediana que conseguimos recrutar hoje têm dificuldade em levar a sua experiência de fé a níveis satisfatórios. Não que a cultura de hoje, ao nível da teologia, da filosofia e da arte, não tenha melhores virtualidades para isso do que no passado. O problema está em que não somos capazes de chegar à sublimidade da vocação. Por isso, a formação espiritual e moral do clero, tanto dos novos como dos velhos, oferece dificuldades a quem vive o sacerdócio e quem exerce a pedagogia em ordem a ele. Esperamos que as gerações vindouras vão mais longe do que nós temos ido.
A espiritualidade sacerdotal bíblica diz-nos que não há vivência do mistério de Cristo que não passe pelo sofrimento. É há dois tipos de sofrimento. Um é sofrimento por fazer o bem. Outro é o sofrimento por fazer o mal. O mais comum da vida sacerdotal é o sofrimento por fazer o bem. E temos muitos exemplos disso, manifestos na santidade da maioria dos sacerdotes de hoje e do passado. Quantos perseveraram até ao martírio, quantos viveram pobres com o seu povo pobre, quantos verteram lágrimas silenciosas para manterem a fidelidade aos seus compromissos sacerdotais.
Mas há também o sofrimento causado pelo mal que se comete com responsabilidade pessoal. Este mal, o pecado, também está incluído no caminho da redenção, se for assumido e vivido como forma de superação do mundanismo que atinge a todos, de maneira maior ou menor. Por isso, esperamos que os sacerdotes que são tentados pelo mal, e são todos, possam encontrar na dura expiação dos seus actos falhados uma maior identificação com Cristo que afirmou a vida, num confronto titânico com o mundo, com o mal e o pecado que nos cerca. Isso devemos ao povo de Deus que confia em nós e tem direito de esperar de nós um estilo de vida penitente e esforçado.
Dizia S. Agostinho que o pior que pode acontecer à vida da Igreja não são os tiranos, nem os hereges. O seu problema maior acontece quando tudo está em paz. Ora, nos tempos recentes, nenhum clérigo europeu perdeu um só cabelo que seja da sua cabeça por causa da perseguição religiosa. Temos tido paz e nem sempre a prezamos. Talvez os vícios medrem mais nos tempos de paz que felizmente vivemos.