Nós não «temos» um corpo, do mesmo modo que podemos possuir uma casa e tantas outras coisas que são distintas de nós, exteriores a nós. Nós somos um corpo, animado, espiritualizado (de outro modo seríamos cadáver). Espíritos encarnados, não celebramos «com» o corpo. Somos, sim, corpo celebrante, interagindo no espaço e no tempo com outros sujeitos celebrantes. Não podemos, pois, deixar o corpo no bengaleiro da igreja para celebrarmos como se fossemos puros espíritos. Graças a Deus não somos anjos, porque não foi pelos anjos que o Filho do eterno Pai se fez homem. Por isso, a nossa participação na «Obra» da Redenção que as Pessoas divinas realizam em nosso favor – «por nós homens e para nossa salvação» – e que o memorial litúrgico torna realmente presente, tem de ser corpórea, conforme à nossa condição de espíritos encarnados, de corpos espiritualizados, seres simbólicos. Isto tem muitas implicações no modo de se celebrar a Liturgia. Entre elas, a importância a dar não só às palavras, mas também às atitudes, movimentos, gestos, vestes, objetos, espaços, tempo, ritmo… dos celebrantes da liturgia sacramental.
Fixemo-nos, agora, nas atitudes do corpo, nomeadamente as descritas em IGMR 43, tendo como ponto de partida a regra formulada no número precedente: «Os gestos e as atitudes corporais … visam fazer com que toda a celebração seja bela e de nobre simplicidade, se compreenda a significação verdadeira e plena das suas diversas partes e seja facilitada a participação de todos. Para isso deve atender-se ao que está definido por esta Instrução geral e pela tradição do Rito Romano, e ao que concorre para o bem comum espiritual do povo de Deus, mais do que à inclinação ou arbítrio particular. A atitude comum do corpo, que todos os participantes na celebração devem observar, é sinal de unidade dos membros da comunidade cristã reunidos para a sagrada Liturgia: exprime e favorece os sentimentos e a atitude interior dos participantes».
A primeira atitude a destacar é a de pé. É, sem dúvida, a mais importante de todas. É a atitude do ministro que serve, do sacerdote que sacrifica, do povo que está. Junto à Cruz, «altar» do sacrifício redentor, a Mãe de Jesus, modelo da nossa participação no memorial do mesmo sacrifício, não está de joelhos ou prostrada, mas de pé (Jo 19, 26)! Essa posição corporal indica presença viva, atividade e respeito, confiança e expectativa, prontidão e disponibilidade para agir. Sendo já a atitude normal da oração hebraica, tornou-se também a atitude característica da oração cristã. Com ela os fiéis associam-se às orações presidenciais. Tipicamente pascal (Ex 12, 11…), mantém essa conotação na prática litúrgica da Igreja antiga que chegou ao ponto de interditar outras posições de oração durante a cinquentena pascal (Conc. de Niceia, can. 20): libertos pela páscoa de Cristo, ressuscitados com Cristo, podemos estar de pé, com confiança e respeito, na presença do Pai. É também uma atitude marcadamente escatológica, própria de quem aguarda confiante a vinda do Filho do Homem (Mal 3, 2). Perante os sinais da parusia, os discípulos devem erguer-se e levantar a cabeça (Lc 21,28)! Recordemos uma bela catequese de S. Basílio (séc. IV):
«É de pé que nós rezamos no primeiro dia da semana, mas nem todos sabem o porquê. Não é só porque, ressuscitados com Cristo e devendo procurar as coisas do alto, nós recordamos à nossa memória a graça que nos foi dada, rezando de pé neste dia consagrado à ressurreição. Mas também porque esse dia se apresenta como a imagem do século futuro» (S. BASILIO, De Sp. S. 27, 66).
Em suma, esta posição é também uma «aptidão», que ganha a eloquência de um gesto carregado de intencionalidade. Aliás, o gesto mais completo e típico da oração litúrgica é o do orante: de pé, mãos e braços abertos e erguidos, fixando o olhar no céu.
Por tudo isto, a posição de pé á a atitude por excelência da oração pública. Com ela os fiéis associam-se às orações presidenciais. Diz IGMR 43: «Os fiéis estão de pé: desde o início do cântico de entrada, ou enquanto o sacerdote se encaminha para o altar, até à oração coleta, inclusive; durante o cântico do Aleluia que precede o Evangelho; durante a proclamação do Evangelho; durante a profissão de fé e a oração universal; e desde o convite “Orai, irmãos”, antes da oração sobre as oblatas, até ao fim da Missa, exceto nos momentos adiante indicados».
Em próximo artigo abordaremos as atitudes do corpo previstas ou admitidas noutros momentos.
(Secretariado Diocesano da Liturgia)