As atitudes do corpo previstas na Liturgia são verdadeira expressão corporal da fé. Romano Guardini, grande mistagogo do século XX, no seu livrinho de catequeses sobre a participação na Missa – O Testamento do Senhor – criticava o modo desconsiderado como muitos entravam na igreja e, após um arremedo de genuflexão, se sentavam como se estivessem no banco de um jardim ou na poltrona de um cinema. No lugar sagrado, a postura tem de ser distinta. E por ela se exprime também a atitude interior de atenção, reverência, de fé. E Guardini exemplificava:

«O próprio ato de estar sentado significa na igreja algo mais do que assegurar-se alguma comodidade: é a atitude de quem escuta com recolhimento. … Tudo isto só o pode fazer, e de maneira convincente, quem está no que faz; e está no que faz quem sabe recolher-se».

Debrucemo-nos, pois, sobre esta atitude, já praticada na comunidade apostólica (Act 20, 9; 1Cor 14, 30). Era a postura corporal de Maria, aos pés de Jesus, como verdadeira discípula (Lc 10, 39). É também a atitude do mestre que ensina (Mt 5, 1; cf. Mt 23, 2) e do chefe que preside. Não se trata tanto de «descansar», como de criar as melhores condições para o acolhimento e interiorização da Palavra, bem como para a meditação silenciosa e orante.

Nas basílicas antigas não havia bancos para os fiéis, que escutavam de pé. Alguns Bispos, convidavam os ouvintes a acomodarem-se no chão enquanto eles, sentados na cátedra, por vezes com os códices da Escritura abertos sobre os joelhos, partilhavam com o seu povo o saboroso pão da Palavra da vida. Na África do Norte, ao tempo Santo Agostinho, o lugar dessa pregação era no centro da basílica. Depois, todos se erguiam e «voltavam-se para o Senhor», deslocando-se o bispo para junto do altar, situado na ábside. Entre nós, ainda há algumas dezenas de anos, a maioria das igrejas não tinha assentos para os fiéis. De facto, o povo não escutava as leituras – normalmente recitadas em voz baixa, a não ser na «missa solene» (em que escutava sem entender os trechos bíblicos, cantados em latim) – e a homilia (ou «prática») não era habitual. A pregação, quando se fazia, frequentemente sem ligação à Liturgia da Palavra do dia, era feita a partir do púlpito e os fiéis, não dispondo de assentos, escutavam de pé ou sentavam-se sobre os calcanhares, no soalho da Igreja.

Hoje, na generalidade das nossas igrejas, os fiéis dispõe de assentos e, sempre que possível, escutam sentados as leituras da Palavra de Deus (com exceção do Evangelho), o salmo responsorial e a homilia (IGMR 43).

Perdeu-se, porém, em parte, o sentido da «cadeira» como lugar de pregação e ensino, apesar de continuarmos a chamar «catedráticos» aos professores universitários e catedrais às Igrejas episcopais. O Cerimonial dos Bispos prevê que o Bispo possa fazer a homilia sentado na cátedra, mas são raros os que assim procedem, talvez porque as cátedras existentes não garantem suficientemente a visibilidade do Bispo que, perdendo um terço da sua altura na posição de sentado, correria o risco de ficar meio escondido, com prejuízo da boa comunicação. Entretanto, mesmo de pé, o Bispo (e os presbíteros), sempre que possível, deveriam pregar junto da cátedra ou cadeira presidencial salvaguardando, assim, a referência simbólica a esse elemento definidor do espaço sagrado. A propósito, recordamos que o OLM de 1981 (atuais preliminares do Lecionário), no n. 26, admite a possibilidade de o «sacerdote celebrante» fazer a homilia «da sede presidencial, de pé ou sentado». Devemos considerar, porém, que esta norma foi superada pela nova redação do n. 136 da IGMR, na 3ª ed. típica (ano 2000) que diz, taxativamente: «o sacerdote, em pé, da cadeira ou do próprio ambão, ou, se for oportuno, noutro lugar conveniente, faz a homilia».

IGMR 43 propõe também a atitude de sentado «durante a preparação dos dons, ao ofertório». A opção explica-se por se tratar de um momento de transição, antes de se entrar no canon actionis, a grande oração eucarística em que acontece a grande ação, se torna presente a obra portentosa da salvação. Entretanto, esse momento, de algum repouso e ruminação interior do suculento alimento da Palavra acabado de receber, deve terminar ao convite «Orai irmãos…» porque é de pé que se participa nas orações presidenciais, como é o caso da Oração sobre as Oblatas que, noutro tempo, era dita em segredo (isto é, em silêncio, chamando-se secreta e, por isso, estando o povo sentado). Diga-se, a propósito, que, havendo procissão dos dons, os fiéis poderão ser convidados (nos termos do último § do n. 43 da IGMR) a associarem-se ao movimento processional pondo-se de pé. De facto, esse não é um «espetáculo» a que se assiste, mas um ato comunitário em que todos estão implicados.

Outro momento em que é admitida, mas não prescrita, a atitude de sentados é depois da Comunhão de todos (não durante, a não ser por incapacidade ou dificuldade física para se permanecer de pé: a Comunhão é, insepara­vel­mente, ação pessoal e comunitária). A IGMR diz que, «se for oportuno», os fiéis sentam-se «durante o silêncio sagrado depois da Comunhão». É um tempo de oração interior de louvor e ação de graças (IGMR 45). Entretanto, o sacerdote e os ministros fazem as abluções e purificações (IGMR 163). Em alternativa a essa pausa de silêncio, pode cantar-se – nem sempre nem nunca! – um salmo ou outro cântico de louvor ou um hino (IGMR 88, 164); nesse caso, a IGMR não prevê a atitude de sentado, sendo mais congruente estar de pé. Daí, também, o «pro oportunitate» de IGMR 43. Quem decide desta oportunidade? Naturalmente, os primeiros responsáveis da celebração, tendo em conta o sentido das coisas e o costume, competindo ao diácono, a um monitor leigo ou ao próprio sacerdote dar as indicações necessárias (IGMR 43).

Tem-se vindo a afirmar o costume de os fiéis permanecerem de pé até ao momento em que a Sagrada Reserva do Santíssimo Sacramento é guardada no tabernáculo, só se sentando de seguida. É uma prática sem fundamento sólido, que se pode admitir como sinal convencional que supre e dispensa a falta da indicação atrás referida. O estar de pé é relativo à Comunhão (podendo terminar quando acaba a distribuição do Sacramento) e não à veneração da presença real do Senhor. Esta não termina nesse momento: nem na assembleia reunida nem nas sagradas espécies que não mudam a sua essência conforme estão dentro ou fora do Sacrário. Aliás, a atitude de sentado está prevista mesmo durante a exposição solene do Santíssimo Sacramento quando, por exemplo, se canta ou recita alguma parte da Liturgia das Horas.

(Secretariado Diocesano da Liturgia)