«Quando quer diminuir o seu tamanho, a fim de não se apresentar com tanta presunção [diante de Deus], o homem ajoelha-se. E se para o seu coração isto ainda não bastar, pode até prostrar-se. Assim profundamente inclinada, a pessoa diz: “Tu és o Deus grande; eu, porém, sou nada”» (GUARDINI, Sinais Sagrados, Fátima SNL 2017, p. 17-18).
Diante de Deus, do Altíssimo que olha para o humilde, mas «conhece de longe» o soberbo (Sl 137, 6), o homem de fé não pode ficar altivo, erguer-se nas pontas dos pés, mas espontaneamente faz este sacrifício da sua altura: inclina-se, genuflete, ajoelha, chega mesmo a prostrar-se por terra na máxima expressão corporal da «humildade» (humus significa “terra”).
A prostração situa-se no extremo oposto ao da atitude de pé. Não se conhece expressão mais eloquente da oração humilde e intensa. Fazendo-se terra com a terra, o orante simboliza a distância abissal que o separa do Altíssimo e, ao mesmo tempo, liga-se a Ele no reconhecimento e adoração da Sua Alteza. É então que a sua súplica ganha asas para voar ao encontro do Senhor que é sublime. A Sagrada Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento, documenta amplamente esta atitude (Abraão: Gn 17, 3; Moisés: Dt 9, 18; Esdras e o povo em assembleia: Ne 8, 6; Tobias e o filho: Tb 12, 16; Judite: Jdt 9, 1; 10, 1-2; Judas Macabeu e a sua gente: 2Mac 10, 4; Os 3 discípulos na Transfiguração: Mt 17, 6; Jesus no Getsémani: Mt 26, 39; Mc 14, 3;5 Os 11 Apóstolos perante o Ressuscitado: Mt 28, 17; Pedro e Jairo, diante de Jesus: Lc 5, 8; Lc 8, 41; O leproso agradecido: Lc 17, 16; Maria, irmã de Lázaro, perante Jesus: Jo 11, 32; na assembleia cristã: 1 Cor 14, 25; na Liturgia celeste: Ap 4, 10; 5, 8. 14; 19, 4; o vidente do Apocalipse perante o anjo que recusa esta adoração reservada a Deus: 22, 8).
Com tais antecedentes, a prostração que entrou na Liturgia antiga e medieval e permanece atualmente no Rito romano, embora com carácter excecional, denotando uma súplica solene e intensa: o presidente e ministros prostram-se no rito de entrada, na Celebração da Paixão do Senhor; os ordinandos e professandos estão prostrados durante o canto das ladainhas, nas respetivas Ordenações e Profissão religiosa. Pelos requisitos de espaço que supõe, esta atitude nunca é generalizada a toda a assembleia celebrante. Pela sua radicalidade eloquente, reforçada ainda pela sua excecionalidade, impressiona e comove.
Entre a posição de pé e a prostração há uma atitude intermédia: a de joelhos. Encontrámo-la já no AT (Salomão, na dedicação do templo de Jerusalém: 1Rs 8, 54; 2Cr 6, 13; Esdras: Esd 9, 5; Daniel: Dn 6, 11; convite à assembleia orante: Sl 94/95, 6 e obrigação para todos: Is 45, 23). Também no NT se regista esta atitude: segundo Lucas, Jesus ora ajoelhado, no Getsémani (Lc 22, 41) sendo imitado nessa atitude por Estêvão, no martírio (At 7, 60); Pedro rezava de joelhos quando teve a visão em Jope (At 9, 40). Também Paulo (At 20, 36) e seus companheiros (At 21, 5) rezam de joelhos, declarando Paulo «dobrar os joelhos na presença do Pai…» (Ef 3, 14); e diante do Senhor Jesus todos se devem ajoelhar, no céu e na terra (Fl 2, 10).
Consequentemente, esta postura corporal passou para a Liturgia cristã, não sendo correto descartá-la sob o falso pretexto de que se trata de um uso medieval, próprio de ritos feudais … Enquanto durar o tempo da peregrinação, a alegria pascal há de alternar-se com a dor da penitência. E a atitude de joelhos, sinal de arrependimento e de humildade, caracteriza a prática penitencial e os dias de jejum. «De cada vez que dobramos os joelhos e nos levantamos de novo, mostramos em ato que pelo pecado estávamos por terra e que o amor do nosso Criador pelos homens nos elevou ao céu» (S. Basílio, De Sp. S., 27, 67: SCh 17bis, 486 s.; PG 32, 192C).
Devido a esta conotação penitencial, em linha com a tradição antiga, as rubricas dos novos livros litúrgicos recordam que o canto das Ladainhas Domingo se faz de pé ao domingo… Contudo rezar de joelhos não é exclusivamente gesto penitencial: é também a atitude da oração individual (os monges do Egipto faziam de joelhos a sua meditação da leitura…) e um gesto espontâneo de adoração na linha dos textos paulinos de Ef 3, 14 e Fl 2, 10.
Recapitulando, esta atitude corporal expressiva da humildade é particularmente apta para significar:
– o arrependimento dos penitentes
– a súplica ardente dos pobres
– a adoração dos crentes.
Há ainda a postura corporal referida em 1Rs 18, 42 (Elias ora de joelhos, apoiando as mãos e a fronte no chão ou nos joelhos). Esta atitude foi adotada pela Liturgia Arménia e pela oração islâmica. Trata-se de uma gradação ulterior entre a prostração completa e a posição de joelhos.
É oportuno referir também aqui o momento dinâmico da atitude de joelhos: a genuflexão. Tal como a inclinação, trata-se de um gesto de saudação, reverência e adoração. É reservado, como saudação, ao SS. Sacramento e, desde Sexta-Feira Santa até à Vigília Pascal, à Santa Cruz (Cerimonial dos Bispos, 69). Também se genuflete, durante o Credo, em certos dias (Anunciação e Natal), como forma de dizer corporalmente a fé, que se está a professar oralmente, no mistério da encarnação: a «descida» do Unigénito do Pai à terra da condição humana.
(Secretariado Diocesano da Liturgia)