Este inverno rigoroso que estamos a viver pode levar-nos a uma meditação desde a nossa fé. Houve tempo em que rezávamos para pedir chuva, para abençoar colheitas, para ser defendidos dos desastres. Essa religiosidade já não nos diz nada nos tempos que correm. Mas há uma pergunta que permanece: Deus já não tem nada que ver com os fenómenos cósmicos ou meteorológicos? A coisa tem que se lhe diga.

Para os crentes cujo testemunho ficou escrito nos livros sagrados era evidente que Deus tinha um papel no assunto. O cosmos é obra da acção divina que assentou os fundamentos, criou os viventes animais e vegetais e, no sexto dia, criou o ser humano. Há mesmo uma narrativa que relaciona o desarranjo das leis cósmicas, o dilúvio universal, com o modo de viver da humanidade que se tornou infiel ao projecto divino. Nos Evangelhos, está registado o poder de Jesus sobre o mar encapelado que ameaça a vida dos apóstolos e repõe a ordem das ondas. Será que na base destes elementos, podemos tentar dizer uma palavra de orientação sobre esta matéria?

É necessário dizer uma coisa básica para nos entendermos: Deus não cria o cosmos e as suas leis como se de um artífice se tratasse. Deus é um agente, mas não é um artesão. São coisas muito diferentes. O agente é aquele que está na origem das acções, mas não é necessariamente aquele que as executa. A acção divina criadora é da ordem da práxis e não da execução. Deus age de modo invisível, na qualidade de causa primeira de tudo, mas não na qualidade do que chamamos “causa segunda”. Podemos mesmo dizer que Deus apenas toca o cosmos no corpo de Jesus e em mais nenhum ponto do que chamamos o espaço e o tempo. Por isso, toda a acção divina criadora está relacionada com a incarnação do seu Filho, como afirma um texto muito elaborado que diz: “Nele, por Ele e para Ele, todas as coisas foram criadas” (Cl 1, 16). Este é o primeiro pressuposto para podermos falar do poder divino sobre os cosmos. Toda a acção divina no cosmos é referida a Cristo, em vista da incarnação, tanto antes como depois dele, cronologicamente falando.

Por isso, o poder divino sobre o cosmos tem em vista aqueles que são de Cristo, quer dizer, os seres humanos e, neles, todos os outros viventes, bem como os elementos que tornam possível a vida. Os crentes são quem já está em sintonia com a acção criadora divina, pois estão em comunhão com o Filho de Deus. A fé, com efeito, torna a vida humana como que simultânea com a vida divina, pela mediação do Filho. É neste contexto que se dá uma ligação entre a criação e providência do cosmos e a nossa existência humana. Este ponto é muito importante, pois qualquer outra forma de entender a acção criadora de Deus é afectada por elementos não aceitáveis pela nossa fé, como sejam o universo mágico ou supersticioso. A fé é a forma de entrarmos na acção criadora divina; a superstição é tentação de nos iludirmos sobre ela. Só primeira é real e eficaz.

Por este caminho, podemos ter alguma luz para nos situarmos na reflexão sobre fenómenos meteorológicos e mesmo sobre eventuais alterações climáticas. Tem sentido orar no contexto de dificuldade causada pela ameaça da vida e tem sentido orar para gerir com responsabilidade aquilo que depende de nós na manutenção das condições que asseguram a vida sobre a terra. Rezar por ocasião de perigos é um acto de exposição mais convicta à providência de Deus que não tem outra preocupação que não seja garantir a vida de todos os viventes. Se passamos por perigos, eles podem vir da imperfeição da criação, sobre os quais Deus não tem controle, pois provêm da perturbação que o próprio Deus consente no seu seio, ao criar seres livres como são os seres humanos. Mas os perigos por que passamos podem também vir da nossa gestão irresponsável das coisas criadas. Neste último caso, podem ser consideradas as alterações que derivam da nossa imoderada gestão do carbono, nos últimos três séculos. Neste contexto, rezar significa fazer penitência pelo modo de vida mau que temos levado e deixar que a lucidez e a alteração do caminho possam redundar na correcção dos desvios e na invenção de modos de vida mais conformes com o projecto criador divino que visa garantir e aumentar a vida de todos.

A oração é possibilidade dada ao crente de viver a simultaneidade com a acção criadora e providente de Deus. Por isso, tem sempre sentido orar bem. Não se trata propriamente e directamente de pedir chuva ou tempo seco, mas de viver mais sensatamente o modo humano que é o do assentimento a Deus, tal como Jesus a isso nos iniciou.