Chamamos-lhe «sinal», mas o «sinal da cruz» é mais do que mero sinal: é «símbolo» no sentido mais rico do termo. De facto, por ele os cristãos conhecem-se e reconhecem-se, credenciam a sua identidade, dizem a quem pertencem, ativam a aliança  que os une e faz deles um povo com uma marca distintiva e indelével. Por outro lado, o sinal da Cruz é uma condensação e figuração de significados profundos, riquíssimos, inefáveis, que mediante ele, na unidade de gesto e palavra, se exprimem de uma forma ao mesmo tempo breve e plena, simples e densa. «Sinal do cristão», a Cruz é também o nosso credo nuclear.

Nas celebrações litúrgicas e na piedade pessoal, o sinal da Cruz assume diversas for­mas:

– A mais antiga é a que ainda hoje se pratica no início da celebração do Batismo das crianças e no Rito da admissão de catecúmenos: ministros, pais e padrinhos… tra­çam com o polegar da mão direita uma pequena cruz na fronte da criança/catecúme­no. Significa que, a partir desse momento, os que assim são assinalados têm uma marca que os distingue e assinala a sua pertença a Cristo, que nos salvou pela cruz. No Sacramento da Confirmação o Bispo (ou o Presbítero que o substitui), com o polegar humedecido no óleo do santo crisma, repete este gesto na testa do confirmando para significar o Dom do Espírito Santo que marca os crismados e faz deles outros «cristos».

– «Benzer-se» é um gesto habitual no início e no fim da oração comunitária ou pessoal: com a mão esquerda apoiada no peito e com os dedos da mão direita estendidos, o cristão faz sobre si uma cruz ampla, da testa ao peito e do ombro esquerdo ao direito [na tradição latina; nos ritos orientais é usual a ordem dos ombros é espelhada, ou seja, do direito para o esquerdo], ao mesmo tempo que diz as palavras: «Em nome do Pai (com a mão direita na testa) e do Filho (a mão direita vai ao peito) e do Espírito (a mão direita vai ao ombro esquerdo) Santo (a mão direita vai ao ombro direito). Amen (juntam-se ambas as mãos diante do peito). O sinal da Cruz, feito deste modo, é uma profissão de Fé em Deus Uno e Trino que no Batismo tomou posse dos fiéis; é, ao mesmo tempo, uma memória da Páscoa em que Cristo nos remiu pela Sua Cruz e Ressurreição.

– Outra modalidade é a persignação palavra que significa signação [o ato de marcar com um sinal] repetida. Consis­te em, mantendo a mão esquerda sobre o peito, fazer com o polegar da mão direita 3 pequenas cruzes sucessivamente sobre a testa, a boca e o peito. Na liturgia da Missa a persignação é prescrita quer ao ministro que proclama o Evangelho, no momento em que o anuncia (IGMR 134, 175), quer aos fiéis que se preparam para o escutar (IGMR 134). Vale a pena ler o texto da IGMR 134: «Tendo chegado ao ambão, o sacerdote abre o livro e, de mão juntas, diz: O Senhor esteja convosco; o povo responde: Ele está no meio de nós, e a seguir Evangelho de Nosso Senhor…, fazendo o sinal da cruz sobre o livro e sobre si mesmo na fronte, na boca e no peito, e todos fazem o mesmo. O povo aclama, dizendo: Glória a Vós, Senhor.  Esta indicação da edição mais recente da IGMR concorda com a edição portuguesa do Missal Romano desde 1992: «A seguir, o diácono ou o sacerdote, dirige-se para o ambão… e diz: O Senhor esteja convosco… Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo são N. Ao mesmo tempo, faz o sinal da cruz sobre o livro e, depois, sobre si mesmo na fronte, na boca e no peito, e o mesmo fazem todos os demais» (Missal Romano, CEP 2021, p. 498).

Duas anotações importantes:

– Os fiéis fazem a persignação sem  dizer quaisquer palavras, a não ser a aclamação Glória a Vós… Por vezes ouve-se o murmúrio surdo da fórmula Pelo Sinal da Santa Cruz, etc. Essa fórmula, própria da piedade pessoal, não tem aqui qualquer cabimento. No anúncio do Evangelho durante a celebração litúrgica a fórmula só pode ser esse mesmo anúncio que nos deve penetrar e santificar totalmente: mente, palavras e afetos.

– A «culpa» desse dislate pertence, porventura, a certos ministros que fazem o anúncio do Evangelho sem fazer qualquer gesto e só a seguir se persignam, silenciosamente, transformando um rito coerente, feito de palavra e gesto intimamente unidos, em dois ritos sequenciais, cuja ligação assim se debilita ou até perde. Convenhamos em que, desligando o gesto das palavras, a persignação perde a sua riqueza e se transforma num «capricho» rubrical. E para capricho, capricho e meio: os fiéis preenchem o vazio verbal com uma fórmula deslocada… E se fizéssemos como a Igreja, na sua sabedoria, manda que se faça, tanto na Instrução Geral como na própria rubrica do Missal ? Nós até sabemos que a Cruz de Cristo, a Sua Páscoa constitui a chave hermenêutica decisiva da leitura/audição não só do Evangelho, mas de toda a Escritura. E que essa audição/leitura é um processo totalizante que envolve pensamento, ato de comunicação, sentimentos e afetos. É isso, precisamente, o que a persignação, neste momento, significa e realiza.

(Secretariado Diocesano da Liturgia)