Há tempos, um sacerdote de idade avançada perguntou a um jovem, mais entendido em questões informáticas, se um computador, recorrendo à inteligência artificial [IA], podia fazer uma homilia para a festa de determinado santo. – «Claro que sim!» – E, logo de seguida a máquina forneceu um texto bem redigido num português fluente. – «Consegue abreviar?» – Questionou o interessado – E, logo de imediato, a IA apresentou uma versão mais breve, mas escorreita, da desejada pregação.

O autor destas linhas resolveu fazer também o seu teste. Solicitou a uma das ferramentas da IA mais em uso uma homilia para a solenidade da Santíssima Trindade no Ano A, em que estamos. E, em menos de 1 minuto, o computador ofereceu um texto bem articulado com a duração prevista de 10 minutos: um termo chave valioso e pertinente, o sumo da mensagem bíblica das três leituras previstas pelo Lecionário, bem contextualizadas, e uma aplicação eclesial e ética bastante oportuna. Fiz novo pedido: queria uma homilia com a duração aproximada de 5 minutos e mais empática. E a máquina correspondeu ao requerido… Que belo instrumento de trabalho! E, agora, que cada vez menos pastores têm de alimentar espiritualmente diferentes rebanhos, para além de responsabilidades de gestão absorventes, quando o tempo escasseia para ler e meditar, quando a saturação anula a criatividade… esta parece uma ferramenta à medida deste «admirável mundo novo». Será?

Resolvi, então, perguntar à IA o que pensar de homilias feitas recorrendo a estes novos meios e a máquina «respondeu» de forma muito atinada e com notável equilíbrio. Partilho com os leitores de VP a resposta, em itálico e com os tópicos, tal qual a recebi:

«A utilização de Inteligência Artificial (IA) para escrever homilias é um tema recente que divide opiniões entre o avanço tecnológico e a essência da pregação.

Vantagens e Pontos Positivos

Desvantagens e Riscos

O Equilíbrio Ideal

A IA deve ser vista como uma ferramenta de apoio (como um dicionário ou uma enciclopédia) e nunca como o autor final. Uma boa homilia exige que o sacerdote use a tecnologia para pesquisar, mas filtre tudo através da sua própria oração, sensibilidade humana e conhecimento da sua comunidade».

Em 19 de fevereiro de 2026, num encontro com o clero da diocese de Roma, o Papa Leão XIV já tinha abordado esta problemática. Vale a pena escutar o que ele disse a este propósito:

«Convido-vos a resistir à tentação de preparar homilias com a inteligência artificial! Como todos os músculos do corpo, se não os usarmos, se não os movermos, morrem, o cérebro precisa de ser usado, por isso também a nossa inteligência, a tua inteligência, precisa de ser exercitada um pouco para não perder essa capacidade. Mas é preciso muito mais, porque fazer uma verdadeira homilia é partilhar a fé. A IA nunca poderá partilhar a fé! Esta é a parte mais importante: se pudermos oferecer um serviço, digamos inculturado, no lugar, na paróquia onde estamos a trabalhar, as pessoas querem ver a tua fé, a tua experiência de teres conhecido e amado Jesus Cristo e o seu Evangelho. E isto é algo que precisamos de cultivar continuamente. E então digo muito sinceramente… que parte da resposta é a importância de uma vida de oração».

A liturgia é encarnação, é ação do corpo de Cristo, cabeça e membros, é diálogo sincero, é encontro, presença real, vida autêntica. Não chegou nem chegará o momento de o pastor se fazer substituir por avatares nem de o anúncio e testemunho da fé poder ser endossado a máquinas e robots. As homilias do Santo Cura de Ars podiam não ser obras-primas de retórica eclesiástica, mas tinham o dom de transformar quem as ouvia.

(Secretariado Diocesano da Liturgia)