Por Secretariado Diocesano da Liturgia
– “Já reparaste que o nosso filho é o único que marcha direito?!” – comentam embevecidos os pais de certo mancebo que marchava na parada, de passo trocado, no dia do juramento de bandeira. A chamada Fraternidade Sacerdotal de São Pio X [FSSPX], movimento de rebelião contra o Concílio e contra o Papa, encabeçado por Marcel Lefebvre nos anos setenta, não se limita a marchar com o passo trocado. Quer uma «parada» à parte, desligada da obediência ao Papa, com bispos e demais clero exclusivos seus, numa hierarquia paralela desvinculada da comunhão efetiva com o sucessor de Pedro. A recente ordenação de bispos, sem o indispensável mandato apostólico, reafirma o corte dos lefebvrianos – também chamados tradicionalistas” – que já se tinha consumado no tempo de São João Paulo II (1988). Corte nunca revertido, apesar das concessões condescendentes dos papas Bento XVI e Francisco, que a nada se pouparam em prol da paz e unidade dentro da Igreja. Mais um rasgão na “túnica inconsútil” – sem costuras nem emendas – de nosso Senhor Jesus Cristo. O “Cisma” não é, principalmente, uma questão jurídica e canónica, embora repercuta nessas áreas e não se possam escamotear esses aspetos que tutelam o bem comum do Povo de Deus. É uma grave questão de Igreja e de doutrina.
Nos inícios deste movimento, hoje cismático, esteve a recusa global do II Concílio do Vaticano. O argumento era de que se tratava de um concílio pastoral, que não definiu qualquer novo dogma vinculante para a fé nem emitiu qualquer anátema de condenação a doutrinas ou práticas. Consequentemente não se era “obrigado” a aceitar os seus ensinamentos, sem definições de fé ou de costumes vinculantes ou definitivas. Tudo se ficava pelo opinável e nada era obrigatório, nomeadamente em matéria de colegialidade episcopal, liberdade religiosa, ecumenismo, relação da Igreja com os estados, determinações litúrgicas, etc. A “bandeira” desta dissidência foi a recusa da reforma litúrgica pós-conciliar e a manutenção dos livros litúrgicos precedentes, mas a questão era bem mais radical.
Bento XVI, quanto mais generoso foi para com os lefebvrianos – sempre por amor à causa da unidade da Igreja – mais foi por eles desconsiderado. As cedências foram relevantes: levantamento das excomunhões, liberalização do uso litúrgico anterior ao Vaticano II (chamado “forma extraordinária” do rito romano), viabilização admitida do estatuto de Prelatura pessoal com bispos próprios (no final gorou-se este caminho), indigitação de “cardeal protetor”… A partir de 2011 fracassaram rotundamente as tentativas de reconciliação. Ficou claro, também, que o foco de discrepância não era o rito litúrgico, dado que se tinha tornado lícita a celebração ad libitum com o Missal e demais livros litúrgicos tridentinos e nem por isso os dissidentes reentraram na Casa comum católica.
Pelo contrário, outras barreiras se foram levantando num endurecimento crescente. Nem todos sabem, mas os membros da FSSPX questionam a validade de alguns sacramentos celebrados na Igreja católica e, concretamente, a Confirmação, a Eucaristia, a Ordem e a Santa Unção… Se celebram numa Igreja “católica”, não utilizam as hóstias consagradas reservadas no Sacrário e procedentes de Missas celebradas por padres que não pertençam ao movimento (diga-se: seita); se, porventura, assistem a uma missa celebrada por um padre não aderente à sua organização, mesmo que o celebrante siga o Missal anterior à reforma litúrgica, não comungam; há casos de candidatos aos seus seminários que são crismados de novo, mesmo constando que já tinham recebido esse sacramento…
Parece, em suma, que regressamos aos tempos de Novaciano (séc. III) e Donato (séc. IV) que instauraram dolorosos cismas na Igreja antiga. O cisma donatista surgiu quando alguns clérigos contestaram o Bispo de Cartago sob o pretexto, que se confirmou ser falso, de que um dos 3 bispos que o ordenara tinha sido traidor, isto é, teria entregado livros sagrados às autoridades do Estado romano que, então (tempo de Diocleciano), perseguia os cristãos. Logo se constituiu uma hierarquia paralela e até se multiplicaram episódios de violência terrorista com os famosos “circunciliões” (que Deus nos defenda: a isto ainda não se chegou!) que tanto amarguraram a vida do grande Santo Agostinho. Diziam os donatistas que toda a hierarquia católica estava infetada pela traição e que, consequentemente, os sacramentos celebrados na Igreja católica era nulos. Não hesitavam em rebatizar algum católico que aderisse ao seu partido. Bem lhes explicou Agostinho que a validade dos Sacramentos não depende da virtude do ministro, mas sim de Cristo, que é quem, efetivamente batiza ou se nos dá no Sacramento do altar.
Os sacramentos dos que estão em cisma podem ser válidos. Mas para que sejam plenamente frutuosos falta-lhes a caridade que conduz à unidade. Aguardemos os próximos episódios desta história desoladora. No passado dia 16 de junho, em Castel Gandolfo, comentando a intenção anunciada pelo responsável supremo da FSSPX de ordenar 4 novos bispos sem mandato apostólico, Leão XIV declarou, serenamente: «A escolha é deles. Temos de perceber o que isso significa para eles e para a Igreja. Certamente, a divisão entre cristãos é sempre um ponto doloroso, mas eles recusam-se a aceitar certos elementos fundamentais da Igreja, começando por vários pontos do Concílio Vaticano II. Se fizerem essa escolha, lamento, mas temos de seguir em frente».