Por Jorge Teixeira da Cunha
O Papa Leão XIV foi recebido na sede da Unesco, em Paris, na sua recente visita à França. É um gesto de hospitalidade interessante, por parte de um organismo internacional que tem as suas dificuldades em dar voz às religiões. Isso compreende-se até certo ponto, poia trata-se de um organismo com cerca de duzentos países membros, com toda a diversidade de pontos de vista que isso implica. De um modo geral, porém, podemos dizer que a Unesco tem sido orientada na base da cultura Ocidental, baseada na ciência experimental e muito condicionada pelas vanguardas culturais do nosso mundo europeu e americano. Na história da instituição consta a presença de um antigo observador do Vaticano, o cardeal Roncalli, que veio a ser o Papa João XXIII, e uma visita do Papa João Paulo II, em 1980.
O discurso do Papa Leão é muito interessante e muito corajoso, tendo em conta o contexto que acabámos de referir. O aspecto que nos parece mais relevante é a proposta das bases de um humanismo, não assente nas metas formalistas da cultura corrente europeia, mas num regresso às fontes remotas, segundo as quais o cristianismo fala do ser humano. Para o Papa Leão, aquilo que caracteriza a nossa humanidade são três experiências básicas: a filialidade, a necessidade e a magnificência. Quanto ao primeiro ponto, trata-se de observar como os seres humanos se encontram inseridos numa cadeia de gerações que não controlam, se experimentam a viver sem terem escolhido vir a este mundo. Por isso, o modo sensato de falar de si mesmo é sob a forma da filialidade: somos filhos e filhas, antes de sermos qualquer outra coisa. Achamos este ponto interessante, pois esta descrição está longe de ser aquela que nos dão os saberes comuns na nossa cultura de hoje. Para a mentalidade corrente, o ser humano é artífice de si mesmo, é autónomo, a ponto de poder dispor da sua própria vida. Também não é corrente descrever o ser humano como ser de necessidades, de forma que ninguém pode viver sem ser ajudado e de ajudar a prover às necessidades. Esta experiência bem real da vida contradiz a nossa mentalidade individualista corrente, que vê o ser humano como um demiurgo, um agente solitário cuja missão é precisamente triunfar sobre a necessidade. Finalmente, o Papa Leão diz que experimentada desta maneira, a nossa humanidade é “magnífica”, numa alusão evidente à sua recente encíclica programática. Propõe, portanto, a contemplação da vida, antes do desenvolvimento da vida, como forma sensata de habitação da Terra.
Estes pontos de partida tem um grande interesse como contributo para a tarefa de um organismo como a Unesco que se ocupa de ciência, de cultura, de educação. Se reparamos bem, se fossem eleitos como caminho e como meta, levariam a um belo resultado. Muito diferente seria a ciência se não fosse apenas a descodificação dos constituintes da matéria, como é a sua acepção corrente. Se a ciência se ocupasse também do sentir dos seres humanos e não apenas da física e da química das suas funções vitais, a nossa cultura seria muito diferente. Isso não significa qualquer desprezo pelo conhecimento científico, que tantas comodidades tem dado ao nosso mundo. Significa apenas a conveniência de dar atenção a aspectos descuidados que, do ponto de vista cristão, nos parecem importantíssimos. Entre esses caminhos não andados da ciência e da cultura e da educação, parece que estão aqueles que o Papa Leão propõe na sua encíclica sobre a inteligência artificial. Pois ele não propõe um desenvolvimento da experiência subjectiva do ser humano, para que possa discernir o verdadeiro do falso, no que toca às possibilidades inteligência artificial? Se apenas soubermos de átomos, não seremos capazes de manter os automatismos da inteligência artificial sob o nosso controlo no futuro. O que Leão nos parece querer dizer também é que na base do conhecimento geométrico do mundo não estaremos à altura de fundar uma ética para o mundo que aí está e que se adivinha no futuro próximo.
Na sua aparente simplicidade, não foi pouco o que o Papa disse em Paris. A escuta da vida subjectiva como dom, a cultura como aprofundamento da vida, como fundação da proximidade e da paz. Há muito que meditar neste texto. Bem gostávamos de saber o que pensam dele os membros muçulmanos, budistas e judeus que integram a assembleia da Unesco. O Papa Leão coloca-se na perspectiva de dar voz não apenas ao cristianismo, mas a todas as formas de escuta que as religiões sérias constituam.