O Papa Leão XIV publicou a sua anunciada encíclica “Magnifica Humanitas”. O primeiro documento deste género costuma ser programático e trazer a marca e o estilo que vão caracterizar os anos seguintes do Servidor de Pedro. Sem surpresa, podemos identificar a espiritualidade agostiniana neste texto: uma ética das virtudes, uma contemplação da nobreza do espírito humano habitado pelo divino, uma certa desconfiança das mediações humanas históricos, dada sua disformidade manifesta com o Reino de Deus. A nosso ver, o texto insiste em alguns aspectos fundamentais: a centralidade do ser humano, a denúncia e a prevenção dos perigos que ameaçam essa centralidade, um apelo veemente à união de vontades para superar os desafios com que estamos confrontados.
O primeiro ponto está bem patente desde o próprio título. A humanidade descreve-se a partir da sua pertença a Cristo, na linha do que afirma o Capítulo inicial da Gaudium et Spes. Nessa religação se encontra a sua dignidade e a partir dessa contemplação se pensa a ética e pastoral para os nossos dias. Existe uma continuidade com melhor tradição da Doutrina Social da Igreja, especialmente com o Concílio Vaticano II. Este ponto é importante, dada a desconsideração que alguns sectores se sentem tentados a fazer hoje, atribuindo à tradição conciliar os problemas que a Igreja enfrenta nos dias que correm. A Igreja é perita em humanidade, dada a sua escuta de Deus e experiência da vida em Cristo. Esta é a luz da sua racionalidade e a sua legitimidade para se ocupar dos temas humanos. O espírito humano é habitado originariamente pela sua pertença a Deus e pela sua inserção em Cristo. Porém, a sua situação histórica é também, dramaticamente, tentada a viver segundo o amor desordenado da sua condição decaída.
É na base desta opção teológica que o texto se ocupa das “coisas novas” que estão a acontecer no nosso século: o nuclear, a biotecnologia, a informática, a intervenção sobre o DNA, a inteligência artificial, a digitalização, a robótica. O mundo novo em que já vivemos tem virtualidades que não são objecto do texto. O Papa adverte principalmente para os perigos do novo poder que a humanidade adquiriu pela tecnologia. De facto, há uma concentração do poder em quem detém o saber, há mesmo um novo “colonialismo” exercido pelos detentores do saber sobre os que o não têm (n. 178), existe a tentação de uma manipulação da verdade e da memória, uma manipulação do conhecimento, que às vezes se chama um novo e falso “realismo” (n. 205). Estas novas condições afectam especialmente o mundo do trabalho, as técnicas da guerra. No que toca à questão do trabalho, o texto não se detém nas possibilidades que a robótica tem para o trabalho produtivo. O propósito é, de preferência, de mostrar como traz uma maior concentração da riqueza, novas formas de domínio sobre os pobres e levanta a questão da distribuição da riqueza e dos bens necessário à manutenção da vida de todos. A questão da guerra ocupa um longo tratado. A insistência do Papa no multilateríssimo necessário à resolução dos conflitos é um dos pontos mais notáveis deste texto. A tentação de dividir o mundo por polos de influência é grande e de defender os interesses dessas potências regionais pela força é a fonte de tantos conflitos de hoje.
Entre os pontos mais marcantes do texto, podemos elencar a condenação da guerra justa e a restrição drástica da própria guerra defensivo. Este ponto é muito controverso, como sabemos. Poderia ir mais longe da proposta da defesa social não-violenta, que parece o modo mais evangélico de proceder na resolução dos conflitos. Existe igualmente uma insistência num modelo de doutrina social da Igreja como “pensamento dinâmico, à luz do Evangelho” e não numa doutrina fixa e sempre aplicável. Transparece do conjunto a impressão consoladora de que o Papa (e a Igreja) se pensa como “defensor da humanidade” e promotor da “civilização do amor”, contra todas as tentações de hoje de identificar o inimigo, de privilegiar os direitos do possuidor como mais válidos do que “o destino universal dos bens da terra”, contra os direitos injustificados da razão do mais forte, visto como razão sempre de preferir.