Há 1700 anos, em Nicéia, território da atual Turquia (Iznik), mais de três centenas de bispos reuniram-se, convocados pelo imperador Constantino e com a anuência do Papa S. Silvestre, para o primeiro concílio ecuménico da Igreja. Vindos de todo o mundo cristão, alguns ainda traziam no corpo as marcas das perseguições e suplícios que haviam sofrido por causa do Evangelho.
A assembleia ocupar-se-á da defesa da fé contra a heresia do arianismo, mas terá ainda oportunidade para se pronunciar sobre a data em que se deveria celebrar a Páscoa e sobre um cisma egípcio. No final dos trabalhos, que duraram cerca de um mês, aprovaram-se decretos sobre aqueles assuntos, bem como sobre outros aspetos da disciplina eclesiástica.
Para assinalar a data, a Comissão Teológica Internacional publicou, no passado dia 03 de abril, um extenso documento, intitulado “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. 1700º Aniversário do Concílio Ecuménico de Niceia (325-2025)”, onde se recorda que a fé de Niceia, na sua beleza e na sua grandeza, é a fé comum a todos os cristãos.
Ameaça à fé
A heresia do arianismo, cujo aparecimento se deve a um jovem e dinâmico padre de Alexandria (Egito) chamado Ário (256-336), negava a divindade de Jesus, vendo-o apenas como uma criatura subordinada ao Pai, uma espécie de demiurgo, criado por Deus para criar o mundo. Porque, segundo ele, falar em “incarnação” ou dizer que o divino assumiu a condição humana, não lhe parecia digno da imagem que tinha de Deus. A preocupação de Ário e dos seus seguidores era preservar a absoluta transcendência de Deus, mesmo que à custa de um deficiente conhecimento do próprio Jesus. Se Deus é uno e transcendente, como é possível que Jesus seja Deus? Mas, como bem advertiu St. Atanásio, um dos grandes obreiros de Niceia, se Jesus Cristo não era Deus, então seria apenas um herói e nós não teríamos sido verdadeiramente salvos e não seriamos filhos no Filho.
Apesar das condenações de Ário e dos seus ensinamentos, a heresia propaga-se e ameaça a unidade da Igreja. O que as contínuas e cruéis perseguições dos romanos ou as heresias gnósticas do segundo século não tinham conseguido fazer, parecia estar a ser conseguido agora. Por outro lado, também a estabilidade política do Império romano, já em declínio, é posta em causa com estas divisões.
O “símbolo” de Niceia
A assembleia de Niceia proporcionou uma discussão sobre os fundamentos doutrinais da fé e tornou possível a definição da ortodoxia cristã. A formulação do “Credo”, afirmando a divindade de Jesus Cristo, torna-se uma declaração fundamental da fé cristã, professando a “consubstancialidade” (homoousios) de Jesus Cristo com o Pai. Embora distintos, Pai e Filho partilham uma mesma “substância” divina.
Claro está que as nossas palavras serão sempre pobres e incapazes de descrever o mistério de Deus. Mas esta precisão afasta a ideia errada de Ário de um Pai que teria enviado um intermediário, um anjo superior ou um super-homem para nos salvar. O próprio Deus vem até nós em Jesus, para nos redimir. Permanecendo fiéis à revelação que Jesus nos faz de si mesmo, do Pai e do Espírito Santo, a profissão de fé protege este mistério contra a tentação de o reduzir, adaptando-o, às limitadas capacidades da razão. Não se trata apenas de uma guerra de palavras, mas da verdade e da verdade da nossa salvação.
A singularidade da nossa fé está na afirmação de que o homem Jesus é Deus, permitindo-nos acreditar que o Filho, Pessoa da Trindade, ofereceu realmente a sua vida na Cruz pela salvação de todos. Deus feito homem não nos olha do alto nem de longe ou de maneira impessoal. Sem deixar de ser Deus, não temeu assumir a nossa condição humana e tomar sobre si as nossas fraquezas e os nossos pecados para nos libertar e nos redimir. Desta forma, o Concílio contribuiu decisivamente para o desenvolvimento teológico, sustentando que só Deus poderia redimir o homem.
O “símbolo” de Niceia será “afinado” cinquenta e seis anos depois, no Concílio de Constantinopla (381), que reafirmou a unicidade de Deus e a presença das três Pessoas divinas: Deus Pai todo-poderoso, Jesus Cristo, o Filho de Deus, o único gerado, e o Espírito Santo que com o Pai e o Filho é coadorado e coglorificado. E é esse “Credo niceno-constantinopolitano” que, habitualmente, professamos aos domingos.
Trabalho que continua
O Concílio de Niceia recorda-nos que a fé cristã não se constrói no isolamento, mas repousa numa tradição viva, transmitida de geração em geração, sob a ação iluminadora do Espírito.
No início dos trabalhos daquela assembleia todos puderam tomar conhecimento dos diferentes “credos” existentes, desenvolvidos em diferentes contextos e tendo uma única preocupação: preservar a fé que deveria ser transmitida, sem erro, aos novos cristãos e às novas gerações para a edificação da Igreja. Através da “conversação no Espírito”, inspirados pela graça divina, os participantes conseguiram chegar a um consenso e oferecer ao mundo um símbolo, “a fé de Niceia”, preservando a verdade e garantindo a unidade.
Por outro lado, em Niceia testemunhamos o aparecimento de vocabulário extrabíblico, importado da filosofia grega, que não deixará de causar estranheza. Mas também aqui podemos contemplar a ação de Deus e a concretização da lei da incarnação: a Palavra que incarna numa cultura e se serve de uma linguagem, ainda que imperfeita, para se dizer. A Palavra deve permanecer viva e viva através dos tempos, percorrendo um caminho evolutivo que visa a sua atualização, sem adulteração. A fé precisa de uma linguagem teológica para se dizer.
Mas Niceia também convoca e responsabiliza os cristãos para o caminho ecuménico, mostrando-nos como as divisões podem ser ultrapassadas se a proximidade e o diálogo se concretizarem e a escuta do Espírito acontecer verdadeiramente.
Ontem como hoje, conhecer e compreender o que esteve em jogo em Niceia, há 1700 anos, é inscrever-se nesta cadeia ininterrupta que nos une aos primeiros cristãos e comprometer-se nesta missão que continua.
(D. Joaquim Dionísio, Bispo Auxiliar do Porto)