Grande parte dessas inovações emerge de ecossistemas tecnológicos altamente influentes, Apple, Meta, Microsoft, Google e outros, exercem impacto global sobre os modos de comunicação, de aprendizagem, de trabalho e de convivência social. Em um intervalo relativamente curto, essas tecnologias passaram a integrar praticamente todos os âmbitos da vida humana, modificando hábitos, comportamentos e formas de perceber a realidade.
Assim sendo, as descobertas do mundo digital vêm afetando o nosso desenvolvimento somático (obesidade e maturação cardiovascular), cognitivo (linguagem, concentração), intelectual (excesso de distração e escassez de conhecimento) e emocional (agressividade, ansiedade, isolamento atrás das telas e medo). Acima de tudo, esse cenário afeta o nosso senso moral em relação a valores autênticos como honestidade, transparência, autoridade, sinceridade, justiça, respeito, educação, solidariedade e humanização, impondo profundos desafios à nossa percepção da verdade.
No entanto, com a evolução tecnológica, alguns desafios continuam nos desvirtuando de valores morais por causa de uma suposta superioridade técnica das novas gerações. As telas e os ambientes virtuais exercem forte influência, quebrando paradigmas de nossos expedientes racionais que foram construídos tendo por base o relacionamento, o afeto, a proximidade, o transcendente etc. Em relação à moralidade, corremos o risco de entrar em um efeito manada, agindo sem qualquer juízo a priori. Essa fragilidade no discernimento racional e moral abre caminho para um fenômeno contemporâneo alarmante e inescapável: a sociedade da pós-verdade.
A pós-verdade favorece a produção de uma lógica muito arraigada de “desinformação”. Se o conteúdo simplesmente compactua com as paixões individuais, gerando despreocupação em relação à veracidade em nome de uma divulgação o mais rápida possível, o indivíduo se converte em um instrumento poderoso na mão de manipuladores. Estes visam a destruição ou, ao menos, a polarização e a desconfiança mútua, fenômenos que ecoam inclusive no interior da Igreja. Diante dessas situações, Jesus nos ensinou claramente como devemos reagir: “Entre vós não deve ser assim” (Mt 20,17).
Vale recordar que a expressão, pós-verdade, foi considerada a palavra do ano pela Universidade de Oxford, em 2016, acumulando uma década de protagonismo no debate público. Segundo o dicionário Oxford, o termo refere-se a “circunstâncias nas quais os fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que os apelos à emoção ou crenças pessoais”. A pós-verdade, que representa uma espécie de falência da racionalidade e da ética ocidentais, caracteriza-se pela relativização da realidade em benefício de convicções formadas em um cenário eminentemente afetivo e ideológico, ainda que sem nexo com a razão. Sob essa lógica, as coisas são de determinado modo apenas porque o indivíduo deseja que sejam, ou porque favorecem o seu discurso; tudo o mais deixa de interessar.
Diante desse cenário blindado por algoritmos e inteligências artificiais, o caminho de resposta exige retomar a lucidez conceitual da verdade. É aqui que a Encíclica Magnifica Humanitas (parágrafos 132 a 134) se torna um farol, pois o papa Leão XIV apresenta importantes reflexões sobre a verdade justamente no contexto das plataformas digitais. A encíclica define a verdade como um bem comum dotado de dimensões racional e relacional, fundamentado na necessidade de verificação e na confiança. Contudo, essa mesma verdade tornou-se um bem comum altamente vulnerável no ambiente digital, visto que a velocidade de circulação da informação e a personalização dos conteúdos impulsionadas pela IA dificultam a distinção entre fatos, opiniões ou conteúdos deliberadamente manipulados (cf. MH, 132).
Nos parágrafos seguintes 133 e 134, a reflexão é ampliada ao evidenciar os riscos da manipulação da verdade quando ela é subordinada aos poderes tecnológico e econômico, relacionando diretamente a verdade à dignidade humana. A verdade é apresentada pelo pontífice como condição essencial para a dignidade e para a democracia, não podendo ser reduzida ao que é meramente mais visível, lucrativo ou popular nas redes.
Finalmente, introduz-se a dimensão política do tema, demonstrando que a busca e o entendimento correto da verdade são requisitos indispensáveis para uma democracia autêntica neste tempo de transição tecnológica. No entanto, a perda desse referencial proposto pela Encíclica enfraquece a vida democrática e abre espaço para o surgimento de novas formas de totalitarismo digital. Afinal, como bem lembrava a famosa expressão atribuída a Mark Twain: “uma mentira pode fazer a volta ao mundo no mesmo intervalo de tempo em que a verdade calça seus sapatos”. Em tempos de IA, a mentira corre ainda com mais rapidez, o que torna urgente o alerta sobre a verdade na Magnifica Humanitas, como um imperativo para os nossos dias.