No famoso discurso de 24 de agosto de 2017, aos participantes na 68º Semana Litúrgica Nacional de Itália, Francisco declara encerrado o tempo da reforma litúrgica. Agora importa conhecer melhor as razões que a nortearam, «interiorizar os princípios inspiradores» e atuá-la com disciplina e fidelidade. Ninguém pense que a reforma dos livros litúrgicos tenha sido o mais importante e decisivo. Decisiva era «renovar a mentalidade» num processo de receção que requer tempo, fidelidade, obediência, sapiência e, sobretudo educação litúrgica».
Novamente, no discurso à assembleia plenária da CCDDS, em 14 de fevereiro de 2019, o Papa recorda que, renovados os livros litúrgicos, faltava ainda o principal: mudar o coração. A tarefa mais importante e pendente era a da formação litúrgica. Uma formação que não resvalasse «para estéreis polarizações ideológicas» entre nostalgia do passado e fuga para um futuro imaginário. Francisco preconizava o são realismo que é inerente à própria Liturgia.
Primeiramente, é preciso ajudar o Povo de Deus «a tomar consciência do papel insubstituível de que a liturgia se reveste na Igreja e para a Igreja». Em seguida, e em simultâneo, é necessário e urgente «ajudar concretamente o Povo de Deus a interiorizar melhor a oração da Igreja, a amá-la como experiência de encontro com o Senhor e com os irmãos e, à luz disto, redescobrir os seus conteúdos e observar os seus ritos».
A própria Liturgia é formadora e transformadora. Mas, para que o possa ser da forma mais efetiva, é necessário formar para a Liturgia: «é preciso que os Pastores e os leigos sejam introduzidos na compreensão do seu significado e linguagem simbólica, incluindo a arte, o canto e a música ao serviço do mistério celebrado, e também o silêncio». Por isso, o Papa preconiza a via mistagógica. E, quase a concluir: «Quanto aos ministros ordenados, mesmo em vista de uma sã ars celebrandi, vale a recomendação do Concílio: “É absolutamente necessário dar o primeiro lugar à formação litúrgica do clero” (SC 14). O primeiro lugar».
Foi sobretudo na Carta Apostólica Desiderio desideravi [=DD], de 29 de junho de 2022, sobre a formação litúrgica do povo de Deus, que o falecido Papa desenvolveu esta temática. É o principal ato do magistério litúrgico de Francisco: um documento de fundo e precioso. Tendo dedicado a primeira parte da Carta Apostólica a aprofundar, de forma empolgante, a noção conciliar de Liturgia: encontro vivo com o Ressuscitado que continua a desejar celebrar connosco a Sua Páscoa perene, a partir do n. 27, o documento foca-se na tema decisivo da formação litúrgica.
Para o Pontífice, as questões que agora importam são: «como crescer na capacidade de viver em plenitude a ação litúrgica? Como continuar a surpreendermo-nos com o que acontece na celebração diante dos nossos olhos? Precisamos de uma séria e vital formação litúrgica» (n. 31). Formação litúrgica, portanto, é a palavra de ordem da atualidade eclesial. Francisco distingue dois momentos nesta tarefa prioritária: formação para a liturgia e formação pela liturgia, sendo esta a que mais importa (DD 34).
A formação para a liturgia obtém-se pelo cultivo da ciência litúrgica. Estes conhecimentos, indispensáveis aos ministros ordenados, devem ser cada vez mais partilhados por todos os fiéis para celebrarem de forma mais consciente a Páscoa, a Eucaristia dominical ao longo do ano litúrgico, os sacramentos e sacramentais que ritmam o percurso da vida cristã. Importa regressar às orientações do Concílio no que diz respeito ao lugar da liturgia no plano de estudos dos Seminários e institutos de formação teológica (DD 37) com uma abordagem litúrgico-sapiencial. Na formação para a liturgia, o estudo e a teoria têm de ser acompanhados por uma experiência celebrativa exemplar quer do ponto de vista ritual quer do ponto de vista espiritual, de tal modo que na liturgia se viva «aquela verdadeira comunhão com Deus à qual também o saber teológico deve tender». Esta formação para a liturgia não se adquire de uma vez por todas. Porque o dom do mistério celebrado sempre excede as nossas capacidades de conhecimento, importa cuidar do aprofundamento deste conhecimento com planos atentos de formação permanente (DD 38).
Se a «formação para a liturgia», com a sua vertente mais teórica, não pode ser descurada, o mais importante é a «formação pela liturgia» ou, como Francisco prefere dizer, «formação litúrgica». Trata-se de ser «formado pela participação na celebração litúrgica». «Mesmo o conhecimento de estudo … para que não se torne racionalismo, deve estar em função do realizar-se da ação formadora da Liturgia em cada crente em Cristo» (DD 40). Assume-se assim a convicção de que a Liturgia forma para a liturgia de um modo vital. Na celebração litúrgica, o Espírito Santo que nela opera «conforma-nos» a Cristo, «forma Cristo» nos participantes e é nisso que consiste a plenitude da nossa formação (DD 41). Não podemos aqui entrar em detalhes. Francisco, na escola de Romano Guardini, valoriza a via sacramental, preconiza a educação simbólica, enaltece o cultivo e exercício de uma autêntica «ars celebrandi», que diz respeito a pastores e a fiéis.
(Secretariado Diocesano da Liturgia)