Publicado no já distante ano de 2001 pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, o «Directório sobre a piedade popular e a Liturgia, princípios e orientações» mantém intacta a sua pertinente atualidade. Pode ler-se no sempre precioso EDREL (Enquirídio dos Documentos da Reforma Litúrgica), nos nn. 5649-5976. Transcrevemos parcialmente as suas considerações sobre o Advento (EDREL 5744-5753):
«96. O Advento é um tempo de expectativa, de conversão e de esperança:
– expectativa e memória da primeira vinda, humilde, do Salvador à nossa carne mortal; expectativa e súplica da última vinda, gloriosa, de Cristo, Senhor da história e Juiz universal;
– conversão, a que muitas vezes a Liturgia deste tempo convida pela voz dos profetas e, sobretudo, de João Baptista: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino de Deus» (Mt 3, 2);
– esperança jubilosa de que a salvação já operada por Cristo (cf. Rom 8, 24-25) e a realidade de graça já presentes no mundo atinjam a sua maturação e plenitude, pela qual a promessa se transformará em posse, a fé em visão e «seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é» (1 Jo 3, 2).
- A piedade popular é sensível ao tempo de Advento, sobretudo enquanto memória da preparação para a vinda do Messias. No povo cristão, está solidamente enraizada a consciência da longa expectativa que precedeu o nascimento do Salvador. Os fiéis sabem que Deus alimenta com profecias a esperança de Israel na vinda do Messias.
O acontecimento extraordinário pelo qual o Deus da glória se fez menino no seio de uma mulher virgem, humilde e pobre não escapa à piedade popular; pelo contrário, ela realça-o, cheia de admiração. Os fiéis são particularmente sensíveis às dificuldades que a Virgem Maria teve de enfrentar durante a sua gravidez e comovem-se com o pensamento de na estalagem não ter havido lugar para José e para Maria que estava para dar à luz o Menino (cf. Lc 2, 7).
Relacionadas com o Advento surgiram várias expressões de piedade popular que sustentam a fé do povo e transmitem de geração em geração a consciência de alguns valores deste tempo litúrgico.
A COROA DE ADVENTO
- A disposição de quatro velas numa coroa de ramos sempre verdes, em uso sobretudo nos países germânicos e na América do Norte, tornou-se símbolo do Advento nas casas dos cristãos.
A coroa de Advento, com o progressivo acender das quatro velas, domingo após domingo, até à solenidade do Natal, é memória das várias etapas da história da salvação antes de Cristo e símbolo da luz profética que, pouco a pouco, iluminava a noite da espera expectante até ao nascimento do Sol de justiça (cf. Mt 3, 20; Lc 1, 78).
A NOVENA DO NATAL
- A novena do Natal surgiu para comunicar aos fiéis as riquezas de uma Liturgia, a que eles não tinham acesso fácil. A novena natalícia desempenhou efetivamente uma função salutar e pode ainda continuar a desempenhá-la. Contudo, no nosso tempo, em que se tornou mais fácil a participação do povo nas celebrações litúrgicas, será desejável que nos dias 17-23 de dezembro seja solenizada a celebração das Vésperas com as “antífonas maiores” e os fiéis sejam convidados a participar nelas. Tal celebração – antes ou depois da qual se poderão valorizar alguns elementos caros à piedade popular – constituiria uma excelente «novena do Natal» plenamente litúrgica e atenta às exigências da piedade popular. Dentro da celebração das Vésperas podem desenvolver-se alguns elementos já previstos (exemplo: homilia, uso do incenso, adaptação das intercessões).
O PRESÉPIO
- Como se sabe, além das representações do presépio de Belém, existentes desde a antiguidade nas igrejas, a partir do século XIII, difundiu-se o costume, sem dúvida influenciado pelo presépio preparado em Greccio por São Francisco de Assis em 1223, de construir pequenos presépios nas habitações domésticas. A sua preparação (em que estarão envolvidas particularmente as crianças) torna-se ocasião para que os vários membros da família entrem em contacto com o mistério do Natal e se reúnam, por vezes, num momento de oração ou de leitura das páginas bíblicas relativas ao nascimento de Jesus.
A PIEDADE POPULAR E O ESPÍRITO DO ADVENTO
- Pela sua compreensão intuitiva do mistério cristão, a piedade popular pode contribuir eficazmente para a salvaguarda de alguns valores do Advento, ameaçados por um costume em que a preparação do Natal se resume a uma “operação comercial” com milhentas propostas vãs, provenientes de uma sociedade consumista.
De facto, a piedade popular percebe que só se pode celebrar o Natal do Senhor num clima de sobriedade e de jubilosa simplicidade, e com uma atitude de solidariedade para com os pobres e os marginalizados; a expectativa do nascimento do Salvador faz com que ela seja sensível ao valor da vida e ao dever de a respeitar e proteger desde a sua conceção; ela intui também que não se pode celebrar coerentemente o nascimento daquele «que salvará o povo dos seus pecados» (Mt 1, 21) sem fazer um esforço para eliminar de si próprios o mal do pecado, vivendo na espera vigilante daquele que regressará no fim dos tempos.»
(Secretariado Diocesano da Liturgia)