A presença das confissões não cristãs na Área Metropolitana do Porto: um desafio de conhecimento, convivência e testemunho cristão.

Por Monsenhor Jardim Moreira*

A realidade religiosa da Área Metropolitana do Porto mudou profundamente nas últimas décadas. A tradicional matriz cultural e social marcadamente católica continua a ser dominante, mas tornou-se hoje acompanhada pela presença crescente de comunidades pertencentes a várias confissões não cristãs que somam já cerca de 25 mil pessoas residentes no território Metropolitano.

Trata-se de homens e mulheres oriundos de diferentes países, culturas e tradições espirituais: muçulmanos, hindus, budistas, sikhs, judeus, bahá’ís, mórmons e membros de outras expressões religiosas minoritárias.

Muitos chegaram por motivos profissionais, académicos ou familiares, outros vieram procurar segurança, estabilidade e melhores condições de vida. Muitos trabalham entre nós, estudam nas nossas escolas, vivem nas nossas freguesias e participam diariamente na construção da sociedade portuense.

Esta realidade não deve ser vista com medo nem com indiferença. Pelo contrário, constitui um importante sinal dos tempos que interpela a Igreja Diocesana e desafia o clero, os agentes pastorais e todos os fiéis a desenvolverem uma nova cultura de proximidade, conhecimento mútuo e diálogo.

O Concílio Vaticano II, particularmente através da declaração Nostra Aetate abriu um caminho de enorme atualidade ao afirmar que a Igreja Católica “nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo”.

Sem renunciar à centralidade de Jesus Cristo nem à missão evangelizadora da Igreja, o Magistério Católico reconhece que o diálogo, o respeito e a cooperação são instrumentos indispensáveis para a paz social e para a dignidade humana.

Num contexto urbano e multicultural como o do Porto torna-se essencial que o clero conheça melhor a composição religiosa das comunidades presentes no território diocesano.

Muitas paróquias convivem já diariamente com famílias muçulmanas, comerciantes hindus, estudantes asiáticos de tradição budista ou trabalhadores provenientes de países africanos e do Médio Oriente.

Esta convivência concreta exige preparação pastoral, sensibilidade cultural e capacidade de acolhimento.

A Diocese do Porto pode encontrar aqui uma importante oportunidade pastoral e missionária.

Uma Igreja que sabe acolher, escutar e dialogar torna-se mais credível perante a sociedade contemporânea.

Neste sentido poderão ser promovidas diversas iniciativas pastorais e culturais: ações de formação para sacerdotes e catequistas sobre as grandes tradições religiosas, encontros de diálogo inter-religioso, visitas institucionais a locais de culto, cooperação em iniciativas sociais e humanitárias, momentos públicos de reflexão sobre a paz, liberdade religiosa e fraternidade humana.

O Porto, cidade historicamente aberta ao mundo, ao comércio e ao encontro de povos, possui condições humanas e culturais para construir um modelo positivo de convivência religiosa.

A Igreja Diocesana tem aqui uma responsabilidade particular: ser simultaneamente firme na sua identidade cristã e generosa no acolhimento humano.

Numa sociedade tantas vezes fragmentada pelo medo, pela polarização e pela indiferença, o testemunho de fraternidade poderá tornar-se uma das mais importantes formas de evangelização do nosso tempo.

* Presidente da Comissão Diocesana para o Diálogo Inter-Religioso