A Comissão Teológica Internacional (CPI) tornou público, no início deste mês, o documento “Quo vadis, humanitas?”, onde reflete sobre o futuro do ser humano à luz dos singulares avanços tecnológicos que vamos testemunhando. Sem deixar de enaltecer o bem que dessas conquistas nos chega, o texto alerta para a “ilusão tecnológica”, mais concretamente para a tentação do “super-homem” tecnológico, denunciando a pretensão de quem olha para a tecnologia como algo que, por si só, pode resolver a condição humana ou assegurar a salvação.
Num contexto de mudanças que podem levar a uma perda de referências, defendendo uma antropologia cristã, cujos fundamentos teológicos apresenta, o documento aponta o dedo a alguns perigos, como o controlo social, a manipulação ou a redefinição do que significa ser humano. Examina os riscos do transumanismo que procura ultrapassar os limites biológicos do homem, ao mesmo tempo que sublinha a importância da corporeidade, da consciência e da relação com Deus, ameaçadas por uma visão puramente materialista ou digital. E apela a uma reflexão ética sobre o progresso técnico, reafirmando o valor único da pessoa humana e insistindo para que a tecnologia continue ao serviço do homem e não o inverso.
Duas ideologias na mira
Resultado de um trabalho iniciado em 2022, o documento assinala os sessenta anos da constituição conciliar Gaudium et Spes, onde se trata das relações da Igreja com o mundo contemporâneo, e propõe uma reflexão de “antropologia cristã” para responder à crise de identidade do homem, fragilizado pela vaga tecnológica. Concretamente, o texto visa duas ideologias: o transumanismo e o pós-humanismo.
No primeiro, a Igreja vê “um movimento filosófico que opera com a convicção de que o ser humano pode e deve empregar os recursos da ciência e da tecnologia para superar os limites físicos e biológicos da condição humana”. No segundo caso, os teólogos alertam para um projeto que assenta em visões pessimistas, prometendo “o hibrido” (cyborg), “a ponto de desconstruir o sujeito humano, tornando totalmente fluida a fronteira entre o humano e a máquina”. Diante disto, respetivamente, o documento critica a visão ideológica e “ingenuamente acrítica do progresso científico-tecnológico”, bem como a “expressão existencial de fuga da realidade, que parte de uma desvalorização radical do humano”.
O que deveria ser uma “tensão para o ultrapassar de condições de vida desfavoráveis” sofre um desvio para a procura de um “super-homem”, alertam estes teólogos, para quem o sonho de uma passagem para lá do humano poderá levar a uma condição “desumana”. Diante da rejeição do envelhecimento e da degradação física, sugere-se uma reflexão sobre a fragilidade para “recordar o sentido decisivo da dependência e a vulnerabilidade como elementos constitutivos de toda a experiência humana”.
“Para onde vamos enquanto humanidade?” Urge verificar a direção deste imparável desenvolvimento, porque a “verdadeira humanização” é uma via contrária a esta “auto-divinização de tipo trans-humanista”.
Inteligência artificial
O documento demora-se sobre o fenómeno da IA, “capaz de substituir todos os aspetos computacionais e operacionais da inteligência humana graças a uma velocidade de cálculo extremamente elevada” (38). E se tal presença contribuir para enfraquecer ou abandonar certos aspetos específicos da inteligência humana, tal dispensa pode ser sinónimo de um conhecimento “sem corpo, sem limites, sem laços e sem sentido moral”. Limitar o conhecimento humano a formas de saber que a IA pode tratar faz aumentar o receio de “fortes repercussões no meio educativo”, com o afastamento das questões éticas, filosóficas e teológicas, que poderão ser relegadas “para o domínio subjetivo ou a questões de gosto”.
Apontando o dedo à “incerteza de identidade”, que conduz a “conflitos identitários”, a CTI encontra aí uma das causas da “crise atual das democracias ocidentais”, ao mesmo tempo que fala de uma “tribalização” das redes sociais “que fragmenta a sociedade em grupos de opinião homologados pelos likes”. E neste campo das redes sociais, nomeadamente no que concerne a um “gigantesco mercado religioso” adaptado ao gosto de cada um, o texto faz eco da inquietação provocada por novas práticas espirituais online. “Os casos extremos chegam a pedidos de bênçãos e exorcismos virtuais, espiritismo digital e “pseudo religiões” tridimensionais”, sem “ligações reais nem pertença comunitária”. Esta religião digital “apresenta-se como se tivesse mesmo o poder de criar um ‘Deus à sua imagem e semelhança’ para propor a uma humanidade que deposita total confiança na tecnologia”.
Amnésia cultural
O texto insiste na dimensão histórica da experiência humana, sublinhando a atual “perda do sentido da história”, reduzida ao “momento fugaz”. Esta amnésia cultural conduz ao revisionismo ou ao negacionismo. Ao mesmo tempo, destacam o desaparecimento da “figura do peregrino”, aquele que parte em busca da sua “verdadeira pátria”, em benefício da imagem do “nómada”, o errante à procura de novas experiências.
A humanidade não precisa de um “salto evolutivo que ultrapassaria a condição atual”, mas de uma “relação salvífica, que torne sensata e bela a aventura de realizar-se plenamente”. A fé na ressurreição de Cristo oferece “um fim e um sentido que permitem a todos e a cada um realizar a sua vocação”. Isto é importante numa sociedade como a nossa, onde frequentemente se reduz a educação a um “projeto de vida efémera, absolutamente autofundada”.
Aqui fica esta breve apresentação, cujo objetivo era convidar à leitura atenta do texto e deixar a sugestão da uma proveitosa utilização em encontros de formação.
(D. Joaquim Dionísio, bispo auxiliar do Porto)