Num artigo publicado no Jornal The Catholic Herald, o Cardeal Arcebispo emérito de Westminster, Vincent Nichols, refletia sobre possíveis explicações do surpreendente aumento de Batismos de adultos nas Dioceses inglesas: têm duplicado nos últimos dois anos. Não se trata aqui das adesões de anglicanos à Igreja Católica, fenómeno que também tem tido significativo incremento mas que, porventura, tem na sua génese motivações de outro tipo e menos radicais. Sem ignorar as particularidades idiossincráticas dos ingleses, podemos extrapolar para toda a realidade europeia – também para nós – as suas considerações,
Ponderando tantas caminhadas de fé que na Páscoa enriqueceram a Igreja com novos neófitos, Vincent Nichols destaca quatro constantes ou fatores-chave:
– Raramente se trata de um caminho feito de forma isolada. No itinerário rumo à fé e ao Batismo, o acompanhamento de outros é, frequentemente decisivo: amigos, entes queridos, grupos paroquiais… Porque «esta caminhada para a fé tem muito a ver com pertença». «A quem pertenço realmente? A quem posso recorrer? Em quem posso confiar?». Nós não somos indivíduos isolados… «A busca de pertença, de ser aceite, de ser incluído, muitas vezes tem um papel poderoso no caminho rumo à fé. Isto porque essa busca leva-nos à fonte de toda a pertença, à origem da nossa vida como dom de Deus, que nos criou como suas filhas e filhos, como irmãs e irmãos uns dos outros, no dom comum da vida».
– Outra motivação poderosa de tantas caminhadas rumo à fé é a busca de sentido para a vida. A sociedade oferece muitos projetos, proporciona carreiras, oferece bem estar material, estatuto sócio profissional… Mas tudo isso é inseguro, instável e insuficiente. O coração humano anseia por mais e por melhor. «A fé oferece um horizonte pelo qual podemos definir o nosso rumo e esforço. … A Igreja, no seu ensinamento, na sua tradição de discernimento, nos seus santos, na sua arte e poesia, abre a muitos o vislumbre do verdadeiro sentido, atraindo muitos das incertezas atuais para um padrão de vida mais deliberado e com propósito. E em Cristo Jesus temos o nosso caminho. Ele é o nosso caminho para a realização».
– Outra dimensão a considerar: a beleza do catolicismo. Entrar numa catedral como a de Westminster, demorar-se numa Igreja, proporciona a muitos uma experiência inédita e impressionante de espaço, paz, beleza. Porque nós «fomos criados para apreciar a beleza»: da natureza, da pessoa amada, da arte, da poesia, da música. E «a verdadeira resposta humana à beleza é o assombro, o espanto, uma abertura do coração e da mente». «Hoje, esta beleza é um caminho poderoso para Deus». Por isso é decisivo que as nossas igrejas sejam lugares de beleza, que as nossas celebrações sejam belas.
– Por fim (mas a ordem destes fatores é comutativa), o Cardeal Arcebispo emérito de Westminster destaca o anseio pelo silêncio, frequentemente indissociável do apreço pela beleza. E, atualmente, são tão raros e preciosos os oásis de silêncio! «Para realçar o caminho da beleza, temos de garantir que há momentos de silêncio nas nossas vidas e nas nossas liturgias». «Muitas vezes é no silêncio que ouvimos o chamamento de Deus, a música que nos atrai para a presença e o abraço de Deus».
Na parte final do seu artigo, o Card. Nichols refere o encontro que teve com uma senhora que ia ser batizada depois de frequentar a Missa dominical há quase vinte anos. O que é que a levara a decidir-se? Depois de tentativas e sugestões baldadas, a mulher declarou: «Não percebo porquê, mas o que acontece naquele altar afeta-me profundamente». Ela tinha reconhecido, quase instintivamente, que no altar da Igreja se realizava o sacrifício supremo e total de Jesus Cristo que se oferecia inteiramente pela nossa libertação e que recapitulava e resgatava o sentido de tantos sofrimentos humanos, de tanto amor abnegado. «Assim, o sacrifício e o sofrimento deixam de ser insignificantes e tornam-se um farol de graça no nosso mundo. E isso leva-nos ao mais belo presente confiado à Igreja, o santo sacrifício da Missa».
«Talvez o interesse crescente em fazer este caminho, especialmente entre adultos mais jovens e entre homens, nos dê uma visão das necessidades mais profundas sentidas na nossa cultura atual». Este é o desafio da missão que temos pela frente. No seu coração está a pessoa de Jesus. O contacto pessoal com o Ressuscitado, na oração pessoal e através da liturgia da Igreja, é fulcral para a renovação da fé e o seu anúncio sempre novo.
(Secretariado Diocesano da Liturgia)