Por Jorge Teixeira da Cunha

O Prof. Carvalho Guerra recitava, muito bem, de memória, alguns poemas, em muitas ocasiões solenes. Entre esses, esta “Prece” de Miguel Torga que compendia a longa vida do nosso amigo:

Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição
Onde era sim, digo não
Onde era não digo sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.

Aqui deixo, em nome pessoal e em nome da Faculdade de Teologia, um pequeno testemunho de gratidão a um homem que viveu a vida intensamente, no meio de sucessos, de perplexidades, como é a vida de todos os que deixam alguma marca de terem vivido.

Carvalho Guerra foi um crente sincero e profundo. Ele era levado pela Palavra que lhe brotava do fundo da alma. A fé cristã era o fundamento do seu dinamismo, a força que movia as causas em que se empenhou, o sentido para os sofrimentos que lhe causava a tarefa de viver. O entusiasmo do seu apostolado contagiou a tantos, gente simples para quem ele aceitava ser o Chico Guerra. Ele foi um fiel leigo, no melhor sentido desta palavra, que confiava na força espiritual dos sacerdotes por quem tinha um respeito sincero e profundo.

A liderança do projecto de fundação da Universidade Católica no Porto surgiu naturalmente na sua vida de académico. A esse empreendimento deu o melhor da sua energia, na fase madura dos seus anos. Agregou vontades, convenceu mecenas, timbrou com a sua marca uma instituição que viabilizou, chamou pessoas que que estruturaram a escola. Gritava com muitos, percorria ruidosamente os corredores da casa, abraçava todos, comunicava confiança. Encontrou em responsáveis como o Cardeal Ribeiro, o Reitor Policarpo, a grandeza de alma para confiar que a Católica no Porto tinha uma identidade própria dentro da Universidade única.

O resultado foi assinalável. A Católica cresceu no Porto com autoridade e com propósito. Carvalho Guerra tem esse mérito. Tornou-se uma escola alinhada com o espírito da Cidade, esse espírito de que são patronos D. António Ferreira Gomes e Leonardo Coimbra, para citar apenas os mais importantes. A defesa do humanismo cristão, da cidadania e da liberdade, do empreendedorismo económico e cultural, do diálogo com outras correntes espirituais, foi o ideário fundacional da Católica no Porto.

Neste momento de despedida, a melhor homenagem que se lhe pode fazer é recuperar o legado de quem soube sonhar a instituição, ajuntar contributos, ouvir a todos, criar proximidade. À sua família, a Católica agradece que lhe tenha possibilitado repartir o tempo e a energia com uma instituição que honra a Cidade e a Igreja.