Mas já é Natal?

Estamos a ser empurrados para o Natal há semanas. Luzes por todo o lado. Inaugurações a meio de novembro. O frenesim interminável dos centros comerciais com falsas promoções, falsos apelos e a simpatia a rimar muito pouco com o tão desejado espírito natalício. É por isso que ninguém consegue viver os seus dias sossegado. Estamos sempre a ser chamados a viver num tempo que não existe: ora no passado, ora no futuro. Mas no presente (e no momento) parece que ninguém vive. Ninguém quer, sequer, saber. Desde quando é que nos tornámos reféns deste consumismo absurdo que “inventa” festividades? Vivemos para as festividades e celebrações em si ou para o tempo que as antecede? É que corremos o risco de chegar à véspera de Natal já sem paciência seja para o que for. Ou seja para quem for. O problema aqui é precisamente não nos ser possível “sair” desta roda invisível em que somos colocados diariamente, apressadamente, prematuramente. Impelidos a comprar, a celebrar quando nem sempre há razões para isso, a fazer votos amorosos quando a nossa vontade não corresponde a nada do que nos é pedido. Mesmo que sintamos que não está ao nosso alcance fugir desta imposição celebrativa, que possamos (pelo menos!) ter consciência de que é real, de que estamos a ser obrigados a viver segundo valores e princípios que nada têm que ver com os que inauguraram o Natal em si. Numa tentativa mais ousada de não compactuar com este esquema e com este sistema assente no consumismo rápido, descartável e triste, resta-nos ter a certeza de que ainda somos os donos da nossa vida. Que ainda podemos viver segundo aquilo que faz sentido para nós e que ainda podemos decidir se queremos (ou não!) ser estes joguetes nas mãos de sabe-se lá quem. Enquanto se acendem luzes, se inauguram instantes e se relativizam as verdadeiras prioridades, que saibamos dizer a quem nos vier com estas histórias mal contadas: O Natal é quando eu quiser. (© iMissio)
A fé cristã, a realidade virtual e o espectáculo

Hoje, felizmente, já ninguém se torna ateu devido aos avanças do conhecimento científico, como aconteceu no passado. Mas o conhecimento científico possibilitou a tecnologia que torna virtual a realidade e faz da grande maioria dos seres humanos do mundo de hoje espectadores e turistas. Este novo contexto já não é causa de ateísmo, mas é pior do que isso e contém muitos perigos para a experiência de fé. Ocorre, por isso, que a nossa teologia e a nossa pastoral sejam capazes de identificar o perigo e de o combater. Onde está o perigo do mundo do espectáculo e da realidade virtual? Esse perigo não é simples de identificar. Mas vamos tentar esclarecer o assunto. A realidade, tal como decorre da imagem científica do mundo, é caracterizada pela constância das leis físicas, pelo determinismo dos processos da matéria, seja da matéria animada como da inanimada. Por sua vez, as ciências sociais e do comportamento também funcionam estabelecendo as regras gerais do funcionamento dos grupos humanos. Ora, o ser humano tem sempre uma apreensão individual da realidade. Por isso, tende a ficar fora das preocupações do conhecimento científico do que, não obstante, é o autor. A aquisição destes conhecimentos faz do ser humano um observador dos processos que dão corpo à ciência. Porém, o ser humano fica de fora, mesmo quando se observa a si mesmo pelos olhos da biologia ou da medicina. Este processo de observação da objectividade do mundo, fez do ser humano um espectador do cosmos, dos corpos dos seres vivos e do seu próprio corpo. Quando este processo de observação se tornou uma indústria através da viagem e do turismo, este caminho de transformação do ser humano num espectador cresceu exponencialmente. E estamos na véspera do turismo interplanetário. O desenvolvimento ilimitado da tecnologia das comunicações fez do nosso mundo uma civilização do espectáculo, e fez da experiência da realidade uma questão de consumo de conteúdos, mediados pela internet, pela televisão, pelos happenings de massas de reúnem centenas de milhar de pessoas. Esta indústria de conteúdos não pára de crescer, não sendo já relevante se os conteúdos são reais ou virtuais. O problema deste mundo novo é que faz de nós, seres humanos incautos, o pasto de uma manipulação generalizada, consumidores sem nome, que a habilidade de uma indústria explora de forma competente, mas impiedosa. O risco é enorme e o mundo novo em que já vivemos não pode deixar de nos causar uma preocupação profunda. Se as pessoas falham a experiência da realidade, feita de sofrimento, de alegria, de encontro, de amor e de ódio, de esforço e de angústia, que será feito de nós neste mundo de consumos frívolos e irreais? A fé cristã supõe algumas coisas que estão em perigo. Desde logo, a escuta de Deus, mediada pelo silêncio, pela graça, pela gratuidade da hospitalidade ao mistério que visita o ser humano da forma mais imprevisível. Na Babel das comunicações de hoje não é fácil que Alguém nos encontre na margem do lago da vida. Como vamos ser capazes de dar a viver a experiência de fé quando nas nossas igrejas entrem dez vezes mais turistas do que orantes? Está em perigo também a experiência moral. O determinismo generalizado, que nos transmite a visão científica e técnica, não tem lugar para a experiência do investimento responsável do ser humano que é a experiência moral. A experiência moral verdadeira implica um pathos originário que fica em causa na civilização do espectáculo e do virtual. Por isso, os seres humanos não experienciam a sua originalidade e a sua identidade irrepetível. Basta ver como se expõem e como alienam a sua privacidade de inúmeros modos, como deixaram de dispor de si para enfrentar o injusto, para lutar por causas que não sejam as do idealismo ético que vemos por aí. Não falamos já da experiência política, das causas da justiça social e assim por diante. Os comportamentos erráticos dos eleitores estão à vista de todos e a causa disso radica também nesta descrição que estamos a tentar fazer. Há, pois, muito que fazer na teologia e na pastoral de hoje. Uma grande campanha de lucidez vai ser necessária para dar continuidade à experiência de fé nos dias que correm.
Caminhada do Advento ao Baptismo do Senhor

A Equipa de Apoio à Coordenação Diocesana da Pastoral elaborou uma proposta de caminhada pastoral, para os tempos entre o início do Advento e a Festa do Batismo do Senhor. O tema “Tu és Estrela. Eu sou o peregrino! e o subtema “Com todos e para o bem de todos” indicam a forma como as comunidades devem viver esta caminhada. Em cada semana, a proposta inclui um apontamento sobre a esperança, devidamente enquadrado na liturgia dominical, a indicação de outros peregrinos da esperança, forma e formulários de orações e indicações concretas da maneira como, cada um, pode ser portador de sinais de esperança. Neste percurso de preparação para a celebração do Natal do Senhor, os fiéis são convidados a viver com alegria, com um verdadeiro espírito de “peregrinos de esperança” e a caminhar “com todos e para o bem de todos”. CAMINHADA DO ADVENTO AO BAPTISMO DO SENHOR
Jesus é o “Rei” do perdão, da paz e da justiça

Já com a árvore de Natal na Praça São Pedro, o Papa rezou com os fiéis o Angelus dominical na Solenidade de Cristo Rei, que encerra o ano litúrgico. Em sua alocução, Francisco comentou o trecho do Evangelho narrado em João (18,33-37), que apresenta Jesus diante de Pôncio Pilatos. Entre os dois, tem início um breve diálogo e o Pontífice se deteve em duas palavras que, entre as perguntas e respostas, adquirem um novo significado: “rei” e “mundo”. Num primeiro momento, Pilatos pergunta a Jesus: “És tu o rei dos judeus?”. Raciocinando como funcionário do império, quer perceber se o homem que tem diante de si constitui uma ameaça, e um rei para ele é a autoridade que governa todos os seus súbditos. Em resposta, Jesus afirma que é rei, sim, mas de uma forma muito diferente! Jesus é rei porque é testemunha: é Aquele que diz a verdade. O poder real de Jesus, Verbo encarnado, reside na sua palavra verdadeira e eficaz, que transforma o mundo. Mundo: eis o segundo momento. O “mundo” de Pôncio Pilatos é aquele onde o forte triunfa sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o violento sobre o manso. “Um mundo que, infelizmente, conhecemos bem”, constatou Francisco. Jesus é Rei, mas o seu reino não é deste mundo. De fato, o mundo de Jesus é o mundo novo, o mundo eterno, que Deus prepara para todos, dando a sua vida para a nossa salvação. É o reino dos céus, que Cristo traz à terra, derramando graça e verdade. “O mundo do qual Jesus é Rei redime a criação arruinada pelo mal com a força do amor divino, que liberta e perdoa, que doa paz e justiça.” “Mas é verdade isto, padre?”. Sim, como é a sua alma? Há algo de pesado ali dentro? Alguma culpa antiga? Jesus perdoa sempre. Jesus não se cansa de perdoar. Este é o Reino de Jesus. Se há algo ruim dentro de você, peça perdão. E Ele perdoa sempre. O diálogo entre eles, prosseguiu o Papa, não se transforma em entendimento, Pilatos não se abre à verdade, apesar de estar perante ela. Manda crucificar Jesus e ordena que se escreva na cruz: “O Rei dos Judeus”, mas sem compreender o significado dessas palavras. No entanto, Cristo veio ao mundo, a este nosso mundo: quem é da verdade, ouve a sua voz. É a voz do Rei do universo, que se fez servo de todos. Francisco então se dirigiu aos fiéis com as seguintes perguntas: “Posso dizer que Jesus é o meu “rei”? Ou dentro do coração tenho outros ‘reis’? Em que sentido? A sua Palavra é o meu guia, a minha certeza? Vejo Nele a face misericordiosa de Deus que sempre perdoa, que está nos esperando para nos dar o perdão? Rezemos juntos a Maria, serva do Senhor, enquanto esperamos com esperança o Reino de Deus.”
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

No XXXIV Domingo do Tempo Comum, a Igreja celebra a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Esta solenidade, que marca o fim do ano litúrgico (ano B), foi instituída pelo Papa Pio XI, no encerramento do ano santo de 1925. Inicialmente, a festa de Cristo Rei era celebrada no domingo anterior à solenidade de Todos os Santos, data que, depois da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, foi alterada para o último domingo do tempo comum de cada ano litúrgico. A Palavra de Deus apresenta-nos Jesus Cristo como o Rei do Universo, um rei cuja soberania tem por base o amor, e fala-nos do Reino de Deus, esse reino de verdade, amor, paz e justiça, a que todos somos chamados a participar. I LEITURA (Dan 7,13-14) A primeira leitura relata-nos parte da primeira “visão” de Daniel, na qual o autor anuncia a intervenção de Deus na história do mundo. Tal intervenção far-se-á através de um “Filho do Homem”, a quem será entregue “o poder, a honra e a realeza”, e que virá “sobre as nuvens “ao encontro da humanidade para instaurar um novo reino sobre a terra. Esse reino, que será construído por critérios e valores completamente diferentes dos praticados pelos poderes terrenos, não será efémero e prolongar-se-á por todos os tempos – “o seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído”. O “Filho do Homem” anunciado pelo profeta é uma referência clara à realeza de Jesus Cristo, o Messias de Deus, que virá instaurar um novo reino, o Reino de Deus, e acabar com todos os reinos geradores de opressão, violência e de injustiças. II LEITURA (Ap 1,5-8) A segunda Leitura, retirada do Apocalipse, é a interpretação cristã da figura do “Filho do Homem” apresentada na primeira. O autor apresenta a figura de Jesus Cristo à comunidade cristã que, naquele tempo, era alvo de perseguições, definindo-O com três títulos cristológicos – “a Testemunha fiel, o Primogénito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra”. É uma “testemunha fiel” porque com os suas palavras e actos de amor, serviço e doação deu testemunho do amor de Deus; é o “primogénito dos mortos”, pois foi o primeiro que morrendo destruiu a morte e ressuscitando garantiu a vida plena; o “príncipe dos reis da terra” porque deu início a um reino de vida e felicidade plena. Em seguida, refere que “Ele virá entre as nuvens”, a fim de instaurar um Reino de amor e felicidade que nunca mais terá fim, e termina convidando a comunidade cristã a aceitar Cristo como o centro da história humana, aquele que é o Alfa e o Ómega, ou seja, o princípio e o fim de todas as coisas. A mensagem desta segunda leitura deve suscitar a todos os crentes, particularmente nos que estão integrados nas comunidades do nosso tempo, as seguintes questões: será que Jesus Cristo é realmente o centro da minha vida cristã? Será que, na minha comunidade, Jesus Cristo é também o centro de todas as coisas? EVANGELHO (Jo 18,33-37) No Evangelho, constituído por uma passagem da Paixão segundo S. João, Jesus Cristo confirma diante de Pilatos que é realmente Rei. No diálogo de Jesus com Pilatos, estão representados dois reinados completamente distintos: o reinado de Deus, personificado em Jesus Cristo, fundado no amor, na doação, na partilha, no serviço, na justiça e na paz, e o reinado instituído no mundo, representado por Pilatos, construído com base em coisas puramente terrenas. Na verdade, Jesus Cristo é o Rei de um Reino anunciado e testemunhado por Ele próprio, “Um reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz. (prefácio desta solenidade). Pelo baptismo tornamo-nos sacerdotes, profetas e reis, o que nos compromete a participar activamente na edificação do Reino de Deus. Não é, pois, suficiente rezar no Pai Nosso “venha a nós o vosso Reino”, mas é necessário aceitar Cristo como nosso Rei e ser construtores do Reino de Deus no mundo. NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO