Exercícios Espirituais – Reflexão do Cardeal Cantalamessa
Nesta semana em que o Papa Francisco e seus colaboradores da Cúria Romana estão fazendo os Exercícios Espirituais da Quaresma, o Vatican News propõe em suas redes sociais X, Facebook, Instagram e WhatsApp uma reflexão por dia, de 19 a 24 de fevereiro, do pregador da Casa Pontifícia, cardeal Raniero Cantalamessa:”Pediram-me para compartilhar com vocês, durante seis dias, uma reflexão de cerca de um minuto. Existem, no mundo, poucas palavras capazes de dizer em um minuto o suficiente para preencher um dia e, de fato, uma vida: aquelas que saem da boca de Jesus. Oferecerei a vocês uma de cada vez, pedindo-lhes que a ‘mastiguem’ durante todo o dia, como se fosse uma goma de mascar da alma”, diz o cardeal capuchinho no primeiro vídeo divulgado na segunda-feira, 19 de fevereiro. Primeira reflexão do cardeal A sua reflexão se concentra na pergunta: “O que vocês estão procurando?” Lembrem-se da sequência. Eles responderam: “Mestre, onde você mora?”. E ele disse: “Venham e vocês verão!” (Jo 1, 38-39). Mas, neste momento, nos interessa apenas a pergunta de Jesus: “O que vocês estão procurando? Você já fez a si mesmo, irmão ou irmã ouvinte, a pergunta: “O que estou buscando na vida? Se não encontrar a resposta imediatamente, vou sugeri-la a você. Você busca o que todos buscam: felicidade! Antes de Freud, Santo Agostinho já tinha entendido isso: “Todos nós”, dizia, “queremos ser felizes! Mas, ao contrário de Freud, ele também dava a razão para esse “impulso” universal: ‘Tu nos fizeste para ti’, diz ele a Deus no início das suas Confissões, ‘e o nosso coração fica inquieto até que repouse em ti’. Examine-se, irmão ou irmã, e veja se a explicação para tantas das suas tristezas e inquietações não reside precisamente aqui, isto é, em ter procurado água em cisternas rachadas, e não na fonte de água viva que é Deus (cf. Jeremias 2, 13)”. Segunda reflexão do cardeal As palavras de Jesus no Evangelho são de altíssimo “teor”. Devem ser saboreadas em gotas. A “gota” de hoje é a palavra que Jesus disse a Marta atarefada em muitas coisas: “Marta, Marta! Uma só coisa é necessária” (Lucas 10, 42). Esta palavra agora é dirigida a cada um de nós. Uma só coisa é necessária! Se tiver esta única coisa, tem tudo, se não tiver, não tem nada. O que é esta única coisa necessária a deixarei dizer por um grande filósofo e fiel do século XIX, Søren Kierkegaard, para que não se pense que o dizemos só nós pregadores. “Fala-se muito de vidas desperdiçadas. Mas desperdiçada é somente a vida daquele homem, e eu acrescento daquela mulher, que assim a deixava passar enganado pelas alegrias da vida e suas preocupações, jamais percebeu que existe um Deus e que ele, exatamente ele, está diante deste Deus”. O que é a única coisa necessária, porém, Jesus a tinha dito primeiro com duas parábolas. É o tesouro escondido pelo qual vale a pena vender tudo; é a pérola preciosa pela qual convém desfazer-se de todas as pérolas. A única coisa necessária é o Reino de Deus, isto é, Deus!
Quaresma ajuda a entrar no deserto interior, em contato com a verdade
Ir ao deserto para perceber a presença dos “animais selvagens” e anjos em nosso coração, e com o silêncio e a oração captar os pensamentos e sentimentos inspirados por Deus. Em síntese, esse foi o convite do Papa aos milhares de fiéis reunidos na Praça São Pedro em um dia ensolarado e temperatura amena, para o Angelus neste I Domingo da Quaresma. “Animais selvagens e anjos”, companhias de Jesus no deserto e também nossas O Evangelho de Marcos – que inspirou a reflexão de Francisco – narra que Jesus «ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás», e também nós – observou o Papa – “somos convidados na Quaresma a “entrar no deserto”, isto é, no silêncio, no mundo interior, na escuta do coração, em contato com a verdade” A leitura narra que “animais selvagens e anjos” eram a companhia de Jesus no deserto. Mas, em um sentido simbólico – explicou o Papa – “são também a nossa companhia: quando entramos no deserto interior, de fato, podemos encontrar ali animais selvagens e anjos.” E explica então, o sentido desses “animais selvagens”: Na vida espiritual podemos pensar neles como as paixões desordenadas que dividem o nosso coração, tentando possuir o coração. Elas nos sugestionam, parecem sedutoras, mas, se não estivermos atentos, levam ao risco de nos dilacerar. Os “animais” alojados em nossa alma E Francisco diz ainda que podemos dar nomes a esses “animais” da alma: Os vários vícios, a ganância de riqueza, que aprisiona no cálculo e na insatisfação, a vaidade do prazer, que condena à inquietação e à solidão, e ainda também a avidez pela fama, que gera insegurança e uma necessidade contínua de confirmação e protagonismo. É interessante: não se esquecer dessas coisas que podemos encontrar dentro de nós: ganância, vaidade e avidez. São como animais “selvagens” e como tais devem ser domesticados e combatidos: caso contrário, devorarão a nossa liberdade. E a Quaresma nos ajuda a entrar no deserto interior para corrigir essas coisas. O “serviço” em oposição à “posse” Mas junto com Jesus no deserto, além dos “animais selvagens”, estavam também os anjos, “mensageiros de Deus, que nos ajudam, nos fazem bem”. E segundo o Evangelho, sua característica “é o serviço”: Exatamente o contrário da posse, típica das paixões. Serviço em oposição à posse. Os espíritos angélicos, em vez disso, recordam os pensamentos e bons sentimentos sugeridos pelo Espírito Santo. Enquanto as tentações nos dilaceram, as boas inspirações divinas unificam-nos e fazem-nos entrar em harmonia: acalmam o coração, infundem o sabor de Cristo, infundem “o sabor do Céu”. E para captar a inspiração de Deus e entender bem, é preciso entrar no silêncio e oração. E a Quaresma é tempo para fazer isso. Sigamos em frente. Retirar-se ao deserto e ouvir Deus que fala no coração Assim, ao darmos os primeiros passos no caminho quaresmal, o Papa propõe que façamo-nos duas perguntas: Primeiro: quais são as paixões desordenadas, os “animais selvagens” que se agitam no meu coração? Segundo: para permitir que a voz de Deus fale ao meu coração e o guarde no bem, penso retirar-me um pouco para o “deserto”, ou procuro dedicar durante o dia algum espaço para repensar isso? Ao concluir, o Papa pediu “que a Virgem Santa, que guardou a Palavra e não se deixou tocar pelas tentações do Maligno, nos ajude no tempo da Quaresma.”
Momento de Oração
Na próxima 3ª Feira, dia 20, às 21H00, haverá um momento de oração, do qual fazem parte a adoração do Santíssimo Sacramento, uma reflexão, um testemunho e preces. A realização deste momento de oração acontecerá todos os meses, nas terceiras Terças-Feiras.
I Domingo da Quaresma
Na passada Quarta-Feira iniciou-se o tempo da Quaresma. A Quaresma é um tempo litúrgico de preparação para a celebração da Páscoa, durante o qual somos convidados ao jejum, à oração e à esmola, práticas que não se devem resumir a umas simples atitudes, mas a uma manifestação da nossa identidade cristã. O jejum deve ser a renúncia a tudo o que possa contribuir para nos separar do amor a Deus e ao próximo. A oração deve ser o sinal da nossa relação com Deus e da nossa predisposição de fazer a Sua vontade. A esmola não se deve limitar a uma mera entrega de bens materiais, mas, acima de tudo, deve ser expressão de uma verdadeira caridade fraterna. A Quaresma é, por isso, um tempo privilegiado para que se opere em nós uma mudança de vida, que passa necessariamente por uma verdadeira conversão e por um fortalecimento da nossa relação de amor a Deus e ao próximo. Este tempo também nos convida a ter uma maior consciência da salvação que nos é oferecida por Deus em Jesus Cristo, bem como a viver de harmonia com o nosso compromisso baptismal. I Leitura (Gn 9,8-15) A primeira Leitura fala-nos da Aliança de Deus com Noé e a sua descendência, uma aliança realizada única e exclusivamente com base no amor e misericórdia de Deus, e que deu origem a uma nova humanidade. No relato do dilúvio, o autor pretende ensinar que Deus não aceita os desvios da humanidade, mas procura sempre caminhos para a purificar dos seus erros. Neste sentido, Deus usa Noé, uma pessoa justa e íntegra, para resgatar todos os que se desviaram e faz com ele uma Aliança, pela qual se compromete que não haverá mais destruição de todas as criaturas. Deus não quer condenar os pecadores, mas sim que eles se arrependam e se convertam. Esta primeira Aliança feita entre Deus e os homens e todas as outras que se seguiram, e que culminaram com a realizada definitivamente em Jesus Cristo, são um sinal evidente da fidelidade, do amor e da misericórdia de Deus por toda a humanidade. Que este trecho evangélico contribua para que, em quaisquer circunstâncias, consigamos dar resposta ao amor e fidelidade de Deus, pois é esta atitude que Ele espera e deseja de todos os seus filhos. II Leitura (1 Pe 3,18-22) A segunda Leitura, extraída da 1ª Carta de Pedro, é dirigida às comunidades cristãs das províncias romanas da Ásia Menor. Conhecedor do ambiente hostil em que viviam estas comunidades por testemunharem a fé em Cristo, o autor da carta exorta-as a permanecerem fiéis na fé. Estabelecendo uma semelhança com o dilúvio, o autor refere que assim como, outrora, as águas do dilúvio purificaram a humanidade e deram origem, pela Aliança de Deus com Noé, a uma nova humanidade, agora, pela água do baptismo todos são purificados e incorporados em Cristo que, pela sua morte redentora, deu origem a uma nova e definitiva Aliança de Deus com a humanidade. Deste modo, o autor apela às comunidades de baptizados, que pelo baptismo nasceram para uma vida nova, a serem fiéis ao seu compromisso e a darem testemunho da salvação, mesmo diante daqueles que são seus inimigos. A Quaresma é um bom tempo para renovarmos o nosso compromisso baptismal e tomarmos consciência de que a nossa identificação com Cristo é única forma de nos incluirmos na nova humanidade criada por Deus em Jesus Cristo e de seguir o caminho de libertação e salvação que Ele nos veio oferecer. Evangelho (Mc 1,12-15) No breve trecho, o evangelista Marcos não relata as tentações uma por uma, como fazem Mateus e Lucas, apenas nos transmite que Jesus foi impelido pelo Espírito Santo para o deserto, onde permaneceu 40 dias, e ali foi tentado por Satanás. O deserto é um lugar que, pelo seu isolamento e silêncio, propicia o recolhimento, a meditação, a oração e a penitência, o que faz dele um sítio privilegiado de encontro com Deus. Depois de passar por diversas tentações e provações, Jesus manteve a sua fidelidade a Deus e partiu para a Galileia, onde começou a sua pregação. Jesus anuncia que chegou o tempo do Reino de Deus, o tempo em que Deus cumprirá as suas promessas. E para que essa nova realidade se concretize, Jesus pede que se arrependam e acreditem no Evangelho. O arrependimento pedido por Jesus, que é essencial à conversão, implica numa transformação radical de vida, numa existência centrada em Deus e nos valores do Reino. Acreditar no Evangelho não significa apenas ter conhecimento do conjunto de ensinamentos de Jesus, mas requer o acolhimento da sua mensagem e uma vida em conformidade com ela. Por isso, é que a mensagem de Cristo -“Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” é uma mensagem que se aplica também aos cristãos de hoje. Ela define o caminho a seguir para este tempo da Quaresma e para todos os tempos da nossa existência. Na verdade, Jesus Cristo é o modelo que devemos seguir para que, perante as tentações que neste mundo temos permanentemente de enfrentar, possamos, em cada momento, perceber com clareza qual é a vontade de Deus. I DOMINGO DA QUARESMA
Mensagem para a Quaresma – COM CRISTO, UM CAMINHO ALEGRE
COM CRISTO, UM CAMINHO ALEGRE “Subamos juntos a Jerusalém” (Mc 10, 33) A experiência de caminhar é habitual para muitos de nós, seja em peregrinação de fé, seja em caminhada lúdica, seja em marcha desportiva. Quem se coloca a caminho parte de um ponto para chegar a outro. Iniciemos esta caminhada da quaresma em direção a Jerusalém (Páscoa) percebendo o ponto de partida e o que desejamos alcançar. Na sua sempre crescente proximidade, Jesus indica aos Apóstolos que vão subir a Jerusalém, mas também o que lá acontecerá. Esse caminho e, sobretudo, a presença na cidade santa, não será fácil nem cómoda: “Iam a caminho, subindo para Jerusalém, e Jesus seguia à frente deles. Estavam espantados e os que seguiam estavam cheios de medo. Tomando de novo os Doze consigo, começou a dizer-lhes o que lhe ia acontecer: «Eis que subimos a Jerusalém e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos-sacerdotes e aos doutores da Lei, e eles vão condená-lo à morte e entregá-lo aos gentios. E hão de escarnecê-lo, cuspir sobre Ele, açoitá-lo e matá-lo. Mas, três dias depois, ressuscitará»” (Mc 10, 32-34). Os que andavam com Jesus estavam “espantados e cheios de medo” com a «novidade» do que ia acontecer. Tal como hoje: o Espírito do Ressuscitado confronta-nos com os espantos e medos da nossa vida, da Igreja, da sociedade, do futuro. Tantas incertezas e receios: guerras sem sentido, fragilidades emocionais e relacionais, debilidades económicas, dificuldades no acesso à habitação, vícios e dependências que geram novas adições, famílias que se desfazem, domínio do materialismo, etc.! Aproveitemos a quaresma para nos apercebermos mais destas realidades que nos envolvem e das angústias que afligem cada um e a sociedade em geral. A quaresma será um tempo propício para metermos mãos à obra na transformação deste estado de coisas. Jesus refere os elementos da sua paixão: “vão condená-lo à morte e entregá-lo aos gentios. E hão de escarnecê-lo, cuspir sobre Ele, açoitá-lo e matá-lo.”. Não engana, não disfarça dificuldades; aponta com clareza a realidade dura pela qual vai passar. Contudo, esta linguagem límpida sobre as dificuldades apresenta-se com antecipação da luz da manhã da Páscoa. O caminho da quaresma não se pode ficar pelo “cinzento” da vida. Há que fazer um caminho existencial com o brilho da esperança e do alento, com a firmeza de que a Sexta-feira Santa não é a meta, mas sim o Domingo de Páscoa. Há um outro elemento entusiasmador que temos de ter presente: Jesus seguia com eles, à frente deles. Jesus é companheiro. Não os manda seguir deixando-os sozinhos nas dificuldades. Não! Caminha com eles e convida-os a fazerem caminho conjunto. Este mesmo Jesus caminha connosco, à nossa frente, toma-nos pela mão para nos falar, guiar, acariciar e fortalecer. Sintamos a alegria de termos Deus como companheiro próximo e íntimo. Com uma boa companhia, a jornada da vida custa menos. Do compromisso da conversão, pelo esforço interior e exterior (penitência e esmola) de melhorarmos as nossas atitudes, irá raiar a alegria da vida nova. O que dá sentido à afirmação do Papa Francisco de que a quaresma é “tempo de conversão, tempo de liberdade”. Teremos, pois, a ousadia de sonharmos uma vida melhor, um mundo novo, uma Igreja mais jovial, aberta a todos, acolhedora de todos, com a presença de todos, desde a alegria das crianças à docilidade dos idosos, do empenho dedicado dos adultos ao entusiasmo alegre dos jovens que a JMJ 2023 nos mostrou? Há, de facto, um mundo novo a ser sonhado. Não fiquemos paralisados no caminho da vida. Na nossa Diocese do Porto, somos convidados a viver a quaresma com este mote: “Vamos com alegria. Subamos juntos a Jerusalém”. O caminho não se faz parado, não se faz sem riscos. Ao contemplar as chagas de Cristo, o nosso olhar direciona-se para as feridas e dores de cada um, de cada família, de cada comunidade, da Igreja e do mundo em geral. E interpela-nos a levantarmos o olhar do coração para a luz da Páscoa. Somos sarados, curados, salvos pelas chagas abertas do amor de Cristo. Sejamos bálsamos para as feridas uns dos outros. A generosidade é uma marca do tempo quaresmal. Pelo jejum e abstinência, somos interpelados a renunciarmos a algumas coisas materiais e a alguns comodismos, percebendo interiormente que Deus é mais importante que tudo o resto. E somos convidados a direcionar “poupança/renúncia” e quanto a nossa generosidade ditar para a partilha fraterna. Todos os anos se indica uma finalidade para ela. E tem sido sempre para instituições e obras de fora da Diocese do Porto. Este ano, porém, escutados todos os organismos de participação, ficou decidido que esse produto será direcionado para o Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição ou Seminário da Sé. O edifício é do século XVI, carece de obras urgentíssimas e é preciso dotá-lo de condições mínimas de habitabilidade para o tornar, efetivamente, o “coração da Diocese”. O custo das obras vai ser muito avultado. Conta-se, pois, com todo o zelo e empenho, traduzidos numa partilha generosa. É uma causa de toda a Diocese e ao serviço de toda a Diocese. Vivamos a Quaresma com audácia e na certeza de que Cristo caminha connosco, na alegria de sermos companheiros amigos e solidários, tendo a luz da manhã da Páscoa como horizonte no qual tem sentido a edificação de um mundo novo ou “Reino de Deus”. Porto, 11 de fevereiro de 2024 Os vossos bispos e companheiros de viagem, + Manuel Linda + Vitorino Soares + Joaquim Dionísio + Roberto Mariz